Sob, sobre e entre os escombros surge "O Inferno de Wall Street", o emblemático fragmento do poema épico O Guesa, de Joaquim de Sousândrade (1832 - 1902). Composto por treze cantos e baseado no culto solar dos indígenas da Colômbia, o poema conta o périplo de uma criança muísca roubada dos pais que, quando completasse 15 anos, após sua peregrinação pela "estrada do Suna", deveria ser oferecida em sacrifício ao deus-sol.
Em Sousândrade, o guesa errante vai muito além da estrada muísca e faz o percurso do próprio poeta, com quem se confunde no heroísmo sacrificial por uma América una, retirada de uma filiação luso-hispânica ou britânica, livre da colonização-exploração e da imoralidade do capitalismo liberal que aparecia nos Estados Unidos na segunda metade do século XIX.
"O Inferno de Wall Street" trata exatamente deste momento histórico. Talvez por isso, pelo cenário desse inferno, pela radicalidade de sua forma, que tenta dar conta de uma realidade inexprimível, é que esse fragmento se tornou o mais expressivo de seus textos. Ele toca os limites do informe, do indizível, daquilo que nenhum idioma é capaz de traduzir, daquilo que não se representa, daquilo que não se pode dizer: a opressão, o capitalismo, o real.
Nas paredes que se levantam pelo progresso, pelo capitalismo, pela bolsa de valores, pela língua única, Sousândrade busca apenas os vestígios da destruição, da Babel, do múltiplo, como quem quer calar uma racionalidade sólida, soberana e binarista, confundir uma voz totalizante e tirana, hiperartificializar uma linguagem triunfal e naturalizada, embaralhar as divisões das cidades e fragilizar hierarquias e dicotomias.
Mais de 130 anos depois (o poema foi publicado pela primeira vez em 1877), e Wall Street ainda é a mesma. A New York City meados do século XIX se repete na Nova Iorque, na São Paulo, na Bagdá, na Londres, na Lagos, na Jerusalém, na Nova Déli, na Bogotá... de início de milênio.
O guesa continua a definhar na grande metrópole, a ser morto pelos ursos especuladores da bolsa, antes sacrificado, agora vida matável, antes messias, agora homo sacer. A singularidade continua a incomodar a lógica binarista do particular e do universal. As divisórias, os limites, o muro, as fronteiras continuam demarcando, separando, dividindo.
A Nova Iorque de Sousândrade, a metrópole mãe concentradora do poder capitalista, espalha-se e se repete anacrônica e atopicamente, uma como todas as nossas grandes cidades, onde, como diz Gilles Deleuze em entrevista a Antonio Negri, em 1990, só uma coisa é universal, o mercado. "Não existe um Estado universal, justamente porque existe um mercado universal cujas sedes são os Estados, as Bolsas. Ora, ele não é universalizante, homogeneizante, é uma fantástica fabricação de riqueza e miséria".
Tendo a Bolsa de Valores como emblema, o mercado é para Sousândrade um símbolo de imoralidade, exclusão, opressão e policiamento. Wall Street é o lugar onde toda singularidade é dominada, é lá que o Guesa é sacrificado pelos Xeques da Bolsa. O "Stock Exchange" do inferno sousandradino cria a completa descontinuidade entre o que só pode estar dentro e o que só pode estar fora, delimitando de maneira dicotômica e binarista a fixidez do dentro e do fora, criando uma linha limítrofe intransponível entre o que é incluído e o que é excluído.
Wall Street é aquela que divide, que separa, que é privada e privativa, que não se dá na esfera pública, que permanece em sigilo, ou, no sentido econômico, que é de poucos, onde tudo deve ser pago ou negociado. Suas paredes estanques e rígidas escondem e protegem, separam e isolam, destacando zonas de atuação, elas fecham o sistema, ali dentro o sistema acontece.
O pedinte, o pobre, o miserável, o marginal, aquele que morre de fome, o que não tem carreira, que não tem trabalho, que não tem poder de compra e nem mesmo de se endividar está fora do sistema. É um guesa, uma vida matável, um excluído, alguém que não tem valor mercadológico, que não tem função na máquina. Conforme analisa Robert Kurz, a maioria da população mundial é formada por sujeitos-dinheiro sem dinheiro, que, mais do que desempregados, são uma massa crescente de inempregáveis.
Isso que a cultura ou a sociedade não pode conviver é, nas palavras de Giorgio Agamben, a vida nua "que a modernidade cria necessariamente no seu interior, mas cuja presença não mais consegue tolerar de modo algum". O que deve ser excluído é, segundo o pensador italiano, uma categoria eminentemente política da Idade Moderna, que faz de cada um de nós um possível homo sacer, ou seja, uma vida insacrificável, no sentido de que não é colocada à morte em uma execução de pena capital, porém matável, uma vida que pode ser morta sem que se cometa homicídio. Ele defende que se hoje não existe mais uma figura predeterminável do homem sacro "é, talvez, porque somos todos virtualmente homines sacri". Uma vez que o que vivemos é uma vida exposta a uma violência sem precedentes de forma banal e profana.
Neste sentido, o campo de concentração se apresenta a matriz oculta do espaço político em que ainda vivemos e não mais um fato histórico isolado ou uma anomalia do passado. É preciso, portanto, como adverte Agamben, perceber as metamorfoses e os travestimentos destes campos. Atualmente, eles abrangem as periferias de nossas cidades, as zones d'attente dos aeroportos, as favelas brasileiras, estão embaixo das pontes, nas palafitas... E os homines sacri são os imigrantes, os carentes, os miseráveis, os oprimidos e vencidos; o povo mesmo, no sentido de pobre, deserdado, excluído. Os totalitarismos foram substituídos pelas leis de controle de imigração, pelo livre-mercado, pelo mercado de trabalho e de consumo e até mesmo pelos traçados das cidades e suas divisões (centro-periferia, Zona Norte-Zona Sul, morro-beira-mar).
É por conta disso que Sousândrade e seu personagem revivem para além do século XIX e se atualizam ao reconhecer uma responsabilidade ética que Glyn Daly aponta como a responsabilidade que nós, contemporâneos, deveríamos ter: a de confrontar a violência constitutiva do capitalismo, a "naturalização/anonimização obscena dos milhões de pessoas subjugadas por ele no mundo inteiro" e "o fato de que nossas formas de vida social fundamentam-se na exclusão em escala global".