Já estava quase pelo fim. E não sei há quanto tempo estava lá. Uma tarde de trabalho talvez. Ainda assim foi instintivo. Alcancei a caneca de alumínio, que sei lá eu como aperfeiçoa o sabor, e levei à boca. O resto foi muito rápido. Escutei um barulhinho e, de repente, estava recebendo um saboroso e temperado com coca-cola beijo de uma barata. Sim, de uma barata. O ósculo mais nojento que eu tive desde a quinta série… A reação foi rápida: uma cusparada, o copo longe e a sensação de estar “sujo” para o resto da vida. Mas minha nova intimidade continuava ali, movimentando-se suavemente sobre o líquido derramado, como se quisesse sorvê-lo todo naquele instante. Foi então que uma estranha idéia de vingança surgiu em minha cabeça. Antes, na verdade, veio surpresa. Há quanto tempo ela estaria ali? Pensei naqueles experimentos com coxas de galinha. Quanto tempo seria necessário para uma barata desaparecer na coca? Não foi difícil fazê-la cativa, recolhi seu corpo junto com os restos de coca e coloquei-a num copo transparente. Ela nadava, parecia incomodada a princípio. Depois passou a repousar naquele líquido negro. Confesso que, naquela altura, eu já não sabia o que me surpreendia mais, se a barata ali, com vida, ou o nojo que eu ia ganhando daquele néctar preto que aprendi a tanto apreciar. Na verdade, as duas coisas me irritavam. Fui até a geladeira, enchi caneca com coca, adicionei um pouco mais no copo da minha convidada e sorvi o resto. Precisava me livrar daquela impressão maldita. Já havia parado com a coca por dois motivos. Por princípios e pelo bem da saúde. Em cada uma dessas vezes percebi que o problema não estava necessariamente nela. No primeiro, me livrei de um papo hipócrita de imperialismo e dominação cultural que havia tomado emprestado de uma namorada. Ela não tomava coca-cola, mas usava havaianas, fumava malboro, assistia novelas e adorava os filmes de hollywood, se derretia nos chocolates nestlé, ia de carro sozinha, todo dia, pra faculdade, usava copos descartáveis e, de vez em quando, não resistia e pedia um mclanche escondido. Quando algum de seus “correligionários” achava as miniaturas toscas do ronald pela casa, ela se limitava a dizer que tinha sido o sobrinho, sempre muito insistente, que havia feito ela comprar. Claro que todo mundo aceitava, afinal, todos temos nossos esqueletos guardados no armário. Bem, em relação à segunda vez, digamos que preferi deixar a saúde por conta dela mesma. Bem, se fosse parar de novo, que não fosse por nojo. Mas não adiantou. Voltou tudo e por pouco não encharco o teclado e a tela do PC. Estávamos travando uma batalha ali e, por enquanto, ela estava vencendo. Resolvi dormir e do que acho que foi aquela noite de tortura, só consigo me lembrar de um fragmento de um sonho ruim. Sei lá como eu sabia que o mundo estava devastado, talvez por uma hecatombe atômica. Não sei como também eu havia escapado. Apenas me dirigia em velocidade para o interior dos escombros. Lá no fundo, ouvia uma espécie de canto, formado por uma orquestra de ordenados e breves silvos. Alcancei a fonte dos silvos e, horrorizado, descobri que se tratava de uma colônia de baratas e que se eu estava ali, obviamente era por que agora era uma barata também. Não sabia como, mas eu podia entender o que se falava, de repente minha mente calou toda e qualquer indagação. Me vi unido a todas as outras criaturas que ali estavam e sentia o eco que nossa voz fazia ao redor do mundo. A grande questão era como administrar os restos. Por que nós baratas vivíamos nesse planeta há mais de 400 milhões de anos, mas nunca encontramos um período tão áureo como o que foi o reino dos homens. Agora, eles haviam partido e nos confiado o seu mais magnífico trabalho, o entulho supremo, o próprio planeta. A questão era de que forma proceder para que esse paraíso se estendesse ainda por inúmeras de nossas futuras gerações. Aquele som foi se espalhando e tomou conta do ar, juntando-se à imensa nuvem de poeira que pairava soberana no que havia um dia sido o céu. Acordei de sobressalto, aliviado e humano. Fui conferir e minha nova amiga ainda estava lá. Balancei um pouco o copo e ela deu sinais de vida. De repente, era como quisesse falar comigo. Aproximei-me e pude ouvir raros silvos ressoando lá dentro. Ela dizia que era questão de tempo que em breve estaria acabado pra ela e, sobretudo, pra mim. Depois daquele sonho, não me assustei com o que ela disse, apenas concordei, sem ter o que dizer. Afastei algumas formigas curiosas e voltei a dormir. Dormi tranqüilo e acordei muito bem. Minha companheira de copo ainda suportou alguns dias mais. Na madrugada do seu último dia, acordei com a garganta seca, tive outro sonho. Um pouco mais preocupante: eu era a última barata daquele planeta devastado, única sobrevivente do mar negro que se espalhou por toda a crosta e que alcançou cada fresta desse mundo submerso. Eu flutuava calmamente na superfície daquele líquido espesso. Vez ou outra o provava e sabia muito bem do se tratava. Flutuaria até onde desse, até um horizonte que nunca chegaria para mim. A nuvem de poeira e aquele mar negro eram agora como reflexos num espelho. E eu pairava no vão do que havia sido a existência. Assustado, meio engasgado, me encaminhei para a sala e pude ver, ao lado do computador, o copo, vazio, quer dizer, havia apenas o líquido negro que eu renovara por dias. Uma angústia tomou conta de mim e por alguns instantes, toda solidão do sonho retornou. Aquela barata havia sido minha melhor companhia nos últimos dias e agora se fora, consumida na sua cela de coca. Pelo menos havíamos nos divertido… Então ouvi um leve silvo que não vinha de lado nenhum, a não ser de dentro de mim. Entendi o que se passava. Não havia o que lamentar. Éramos apenas peças do mesmo experimento, vivendo o tempo que nos davam, enquanto nos davam. No fim, ninguém dura mais do que pode durar mesmo. Então pra quê perder tempo com as entrelinhas? Ergui o braço e, instintivamente, alcancei a caneca de alumínio, que sei lá eu como aperfeiçoa o sabor, e levei à boca. O resto foi muito rápido. Estava batizado!