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Quem nos dirá do Real?

Do assombro diante de mais uma falsa verdade num tempo que é só acúmulo, evocar o pensamento do filósofo Slavoj Žižek para lembrar de um gesto de recusa.

Em 20 de março de 2008, quando a invasão das tropas americanas no Iraque completou 5 anos, o presidente dos Estados Unidos, em discurso no Pentágono, reafirmou as diretrizes governamentais que a justificaram e garantiu, contrariando todas as evidências, que "o mundo está melhor e os Estados Unidos da América estão mais seguros". Tão controverso quanto o número de cadáveres é o número de refugiados, o custo da guerra, suas motivações e mesmo seu fim. Reestruturar os pressupostos de nossa realidade social é propor, finalmente, um enfrentamento à inadequação ideológica que perpassa tais discursos.

Também há 5 anos, ocorrera no Brasil, pela Boitempo editorial, o lançamento de uma das obras da extensa bibliografia do escritor esloveno Slavoj Žižek, Bem-vindo ao deserto do Real!, em que o escritor analisa, dentre outros acontecimentos, o ataque de 11 de setembro. Sociólogo, filósofo e crítico cultural, Žižek fundamenta e articula seu pensamento a partir de Georg Wilhelm Friedrich Hegel, Karl Marx e Jacques Lacan. A metodologia que emprega na construção de seu pensamento, segundo a leitura que faz de Hegel, é a da dialética, a qual nunca se resolve em definitivo. A influência de Marx está presente na crítica à ideologia, ao passo que de Lacan provém importantes conceitos psicanalíticos, dentre os quais se destacam particularmente os registros do Imaginário, do Simbólico e do Real. Segundo Lacan, o que entendemos por "realidade" articula-se através da significação (Simbólico) e da constituição das imagens (Imaginário). O Real, entretanto, não é incorporado nesta ordem da significação, ele persiste como um modo de impor limites de negação a qualquer ordem significante (discursiva). Pode-se dizer, também, que ele a compõe, uma vez que o Real fornece uma textura abstrata na qual (ou a partir da qual) se constitui a realidade.

Ao contrário de uma concepção predominante, a ideologia não oculta ou distorce uma dada realidade subjacente, mas é a própria realidade que não pode escapar de ser estruturada segundo uma mistificação ideológica. As imagens e discursos que nos atravessam em nossa inteligibilidade formam as coordenadas simbólicas que determinam o que sentimos como realidade. A lição da psicanálise é a de que não se deve tomar, de imediato, a realidade por ficção, é preciso ter a capacidade de discernir o Real e criar a partir daí, pois só temos condições de suportá-lo caso também possamos agir sobre ele, ficcionalizando-o. A proposta então parece ser a de buscar uma identificação completa com a fantasia que estrutura o excesso de nossa imersão na realidade diária. Mas que fantasia? Quem roteiriza nossos atos, gestos e sentires? Será que podemos, ainda, confiar em um Outro simbólico que endosse nossas (in)decisões e (in)ações?

Em entrevista compilada em livro sob o título Arriscar o impossível, publicado em 2006 pela editora Martins Fontes, retomando Lacan, Žižek argumenta que "o Real não é uma espécie de ponto central intocável, sobre o qual não se possa fazer nada além de simbolizá-lo em termos diferentes. Não. A idéia de Lacan é que se pode intervir no Real. A dimensão fundamental da psicanálise [...] já não é a da simples ressimbolização, mas a de que algo de fato acontece. [...] a aposta básica da psicanálise é que você pode fazer coisas com as palavras, coisas reais, que lhe permitem mudar os modos de gozo, e assim por diante".

Na vertente de um universalismo emancipatório radical, Žižek propõe um outro confronto, um novo viés, uma alternativa à tradicional elaboração de diretrizes institucionais inseridas no arcabouço político-administrativo instaurado: que sejamos capazes de desenvolver uma politização da ética, uma ética do Real. "O ponto de partida", compartilha o filósofo, "é a insistência na autonomia incondicional do sujeito, é a aceitação de que, como seres humanos, somos responsáveis, em última análise, por nossos atos e nosso ser-no-mundo, inclusive pela construção do próprio sistema capitalista. [...] a ética do Real tende a emergir através da transgressão das normas e da descoberta de novas direções, [...] tal ética aceita plenamente a contingência, mas se dispõe, ainda assim, a arriscar o impossível, no sentido de romper com as posturas padronizadas. Trata-se de uma ética que não só é politicamente motivada, mas também retira sua força do próprio político." Condizente com esta idéia de uma ética do Real é a adoção de uma concepção de política "radicalmente incorreta" que rompa de vez com as convenções e os princípios ordenadores da realidade social atual: os princípios do capitalismo liberal, fundados na exclusão em escala global.

Demonstrando a crença, ainda minoritária, de que a invenção de uma nova coletividade é possível, em 2002, um grupo de reservistas israelenses conhecidos como refuseniks, manifestou publicamente as iniqüidades praticadas por ocasião das ocupações realizadas por Israel em 1967, recusando-se a servir em tais territórios. Não se trata de antipatriotismo, covardia ou de mais um movimento pacifista. Eles estão comprometidos, publicamente, a lutar pelo Estado de Israel em caso de guerra, entretanto, recusam-se a tomar parte em uma missão governamental criada "para dominar, expulsar, reduzir à fome e humilhar todo um povo", roubando-lhes a autonomia como membros de uma comunidade política1. A questão fundamental então, segundo Žižek, passa não mais a recair unicamente sobre o explícito tratamento cruel e arbitrário perpetrado contra os palestinos, mas sobre o fato de estes não mais serem vistos como "cidadãos integrais, mas estarem reduzidos à condição de Homo Sacer, o objeto de medidas disciplinares e de ajuda humanitária". No Homo Sacer, segundo o filósofo italiano Giorgio Agamben, encontramo-nos diante de uma "vida nua residual e irredutível, que deve ser excluída e exposta à morte como tal, sem que nenhum rito e nenhum sacrifício possam resgatá-la". O gesto dos refuseniks marca então o traçado de uma outra realidade possível, a tomada de uma outra posição, uma escolha: à imagem do homo sacer sobrepõem a do "próximo", no sentido judaico-cristão. Retomando Žižek uma vez mais, de fato, "esse é o teste ético mais difícil para os israelenses hoje: ou o mandamento "Ama teu próximo! significa "Ama o palestino!"(o próximo par excellence dos israelenses), ou não significa nada".

Žižek defende um novo universalismo político, cuja possibilidade depende, portanto, de um rompimento com as convenções e a gramática vigentes do engajamento hegemônico. Para tanto, a diretriz ética primordial a ser adotada é similar a esta, dos refuseniks, enquanto confronta o fato de que nossas formas de vida social estão fundamentadas na exclusão. Portanto, o caminho para a verdadeira solidariedade humana passa pela confrontação direta com as obscenas fantasias racistas que circulam no meio simbólico e a imediata criação de outras que sejam capazes de estruturar uma nova coletividade. Afinal, segundo constatou Freud no início de A interpretação dos sonhos, "se não se pode mudar o conjunto explícito de regras ideológicas, pode-se tentar mudar o conjunto subjacente de regras obscenas não escritas."

Notas
1 - Para ler mais sobre esta iniciativa, visite a página do movimento na Internet, em inglês: http://www.seruv.org.il/english/default.asp [voltar]