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jean mafra

essa é a primeira parte do título do álbum solo de jean mafra. provavelmente refere-se ao fato de ser um trabalho autoral, independente das coerções internas tão normais a uma banda, das quais não devem escapar a ssc (samambaia sound club), uma das principais bandas do universo/cenário pop de florianópolis, na qual jean figura como homem de frente e letrista. independente, arrojado, artesanal. fruto de um período de maturação que considero como necessário, vem dar ao público mais uma faceta, talvez a mais íntima, desse agitador cultural que, intencionalmente ou não, mafra se tornou. só, compondo, adornando as idéias, olhos fechados no vai-e-vem ilha-continente. como se aprofundar na criação de um homem ? como entender ou tentar explicar um homem que é tantos? desnecessário. todos somos tantos e mafra não é diferente. embora sejam esses tantos profícuos e competentes em sua produção de tantos. não se trata de ter ou não companhia, seria simplório demais. não se trata, tampouco, de um solitário e sua criação de porão. a d-obra de mafra é sua, e e é tão coletiva quanto a montagem de um quebra-cabeças numa praça. perpassa cerca de dez anos de criação, seleção, suor, artesanato da palavra e versões a cappella, em busca da execução perfeita. mafra é um perfeccionista, qualidade rara nos que realmente sabem manufacturar objetos artísticos. pode ser fruto da solidão criativa, aquela que se ativa mesmo em plena multidão. daí as possibilidades de contradição, paradoxos. não é o umbigo do mundo, muito menos o de mafra - por mais que ele possa acreditar nisso. então pode ser um espelho, ecos e reflexos de uma caminhada. palcos, praças, praias, ruas, sebos, escritórios, sarjetas e altas rodas. mafra é um aglutinador. um ímã. sua força criativa reverbera e atinge as mais variadas direções e sentidos, cativando e envolvendo pessoas. sua verve polêmica polariza e dissemina. e não há como ser diferente. em minúsculas, jean mafra se infiltra e vaza. vaza sua voz, faz a sua vez. vem acompanhado de toda essa carga, de toda essa gente, de todos esses tons, parcelas e parcerias, muitas para essas linhas; mafra vem acompanhado. acompanhando em ritmo anacrônico as voltas que o mundo deu, que o mundo dá. giranças de (sem)sentido. de saturação. situação de : elo, naco de sentido, descarga, recarga, retorno, ritos e rotas, tapas e notas. queda brusca e busca.

pare de não fazer sentido

em 1984, a banda talking heads gravou em vídeo o show "stop making sense". david byrne e sua trupe, em quase duas horas de teipe, balançam, agitam e emocionam a platéia em performances corporais, cênicas e modificações de cenário. uma profusão de signos diversos, embaralhando e capturando a atenção do espectador, numa junção de música e imagens, corpo e som. uma meta-apresentação que mantém em "nossos dias" tremenda atualidade. jean, em outro momento, se apresenta como um produtor de meta-canções. tal como o cenário de "stop making sense", que se monta aos poucos, ao longo da apresentação, as canções de mafra deixam suas pistas, voltam-se para seu interior e executam-se enquanto escutam-se. um fazer-se-ouvir. "compondo" é a canção de abertura do álbum. o compositor lamenta (se lamenta talvez) o assassinato de uma barata, quem sabe o assassinato da canção, na busca de "construir um belo texto/inventar um novo som ou cantar fora do tom". na abertura, mafra dá a tônica de seu álbum, autoral, talvez num sentido radical, invadindo o abrigo secreto do compositor e expondo "a angústia da criação". "adorno" trata da questão da indústria, fazendo referência direta ao teórico t. w. adorno, que tanto tratou da questão da indústria cultural e de seus impactos na cultura. "adorno" é também apenas um complemento para algo que já está pronto, um arremate, muitas vezes essencial. jean mafra é ambicioso e não esconde suas ambições, coloca de cara a encruzilhada em que insere suas canções. há a manufatura artesanal e os versos em escala industrial, sem deixar de ressaltar a dor "no centro e no lado de dentro", inerente à prática de compositor/produtor de bens, o que se explicita pelo duplo sentido da palavra 'vendo' (verbos ver e vender). a criação também está presente na réplica ao seu parceiro fábio corrêa, na irreverente "fabioletas", em que mafra afirma seu apreço por rimas e, de modo irônico, marca os usos e abusos desse recurso ("se talvez me contradizo/ ou talvez provoque riso"). um bom uso é demonstrado em "arrependimento" com o uso de rimas internas dando sustentabilidade à canção, recurso muito bem utilizado por mafra em suas composições. "rosebud" conta com a participação de lígia estriga, cuja voz tremula num efeito que se condensa com a atmosfera etérea da canção, que é doce, mas nem por isso menos controversa, se pararmos para decifrar sua letra e seu tema. o mesmo tema de "dobra", em que uma "buceta" é cantada como "rara jóia", cujas dobras são obras-primas, pétalas que mantém encanto único. não que exista uma heterogeneidade rígida nas faixas de , mas "mônica/motim" se destaca, provavelmente pela batida funk que sustenta o dueto entre jean e paula felitto, após referências a diversos ícones da canção/música popular brasileira. que explodam, que explorem o motim, barril de pólvora aberto, deixa claras as suas intenções. se a palavra é medida e calculada nas composições de jean mafra, outro elemento que se destaca em seu processo de artesão é o uso da voz. suave, o timbre de mafra perpassa as canções de só, em acentuações que conferem sentido para além do sentido cantado, mostrando que a canção se estende para além da fórmula letra+música. o intéprete se faz presente e carimba seu selo, imprime sua marca no cantado, deformando e conformando o som, firme, irônica ou doce, como em "íris", "saudade" e "só". há uma busca de sentido em ? que sentido jean mafra pretende restabelecer, ao questionar a brilhante produção da banda talking heads? não creio se tratar de ruptura, nem de inversão. o diálogo, o intertexto, a paródia, são elementos que constituem as canções de . uma grande conversa com o mercado, com as cartas marcadas. uma fala para as falhas e para os falsos - profetas, reis e magos da canção. "manifesta" mostra isso de modo contundente. um caleidoscópio de referências se forma, travando diálogo com a tradição e com o novo, esvaziando o inesgotável, para que se encha de novo. "festa para animar".

para poucos

qual o sentido de tudo isso? qual o sentido de produzir? de criar? de procriar essa prole indesejada que é a canção que é marca de compromisso consigo mesma antes de tudo e que, normalmente, é taxada como sendo para poucos? que sentido restabelecer no caos administrado da circulação musical? que brechas adentrar e que barreiras estourar? talvez só haja um grande vazio que traga, que estraga e que nos traga de nada a nada. talvez haja som antes da luz e revolução sem revelação. não precisamos de messias, mas de mesclas. mas quem quer se importar? já disse que jean é ambicioso, pretensioso talvez... inicialmente, as apresentações de seu repertório solo foram chamadas de para poucos. claro, ali está chico. talvez esteja o chique do que é reservado aos iniciados. mais uma vez, a ironia vem resolver e mostrar os intentos desse rapaz. só ou pare de não fazer sentido ou (ainda) para poucos. não há sub nem superestimação nesse título. a proposição inicial é a de todo criador que tem que se deparar com sua cria e o vazio - seu - e do mundo ao seu redor. jean vem à público, cara desnuda, disposta a tapas, mostrar sua cria, suficientemente gestada, pronta (ou não) para ganhar (e arreganhar) o mundo. essa busca de nexo, de sentido, essa busca, esse apelo ao re-sentido só se dará contigo, querido leitor - que até agora pode não ter percebido que falamos para e de ti. poucos e pouco a pouco, ainda. mafra vaza, escava e traça seus próprios cursos, seus roteiros, aglutina e contamina. não será sem dificuldades que seu álbum circulará. não será com pouco trabalho que sua voz reverberará. não será sem nexo o motim. manifesta agora tua ira, leitor. jean mafra morre no momento em que abraça teus ouvidos. deposita as moedas ao barqueiro, segue e consegue salvar-te. enfie confie-se. estaremos sempre sós, sem pedido de socorro que não grite apenas a nós. mas tu, como eu, como jean mafra e como o mundo, é (um) .

só