início contato um conto de rafael soares duarte

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Somos parte e somos tudo o que pode ser aceito como algo. Do prego à idéia, da carne ao pensamento que nega o próprio existir. Assim sendo, nossa existência se resume a estas paredes que você pode ver agora. Que é impossível ver neste momento. São paredes e uma linha imaginária. Exatamente nada além de auto-impostos limites. A razão final da existência, o princípio. Se algo é, o trabalho está sendo feito, a parte de um, ou as partes dos outros. Não existe necessidade de saber se aquilo que É, é por causa de um, de outro ou de todos, de nosso esforço em conjunto. Se tudo deixasse de existir, ou nunca houvesse existido, seria em conseqüência da vontade, e nosso trabalho estaria sendo feito de qualquer modo. Por vezes, é óbvio que somos apenas parte de algo. Outras vezes, em meio ao inumerável, selecionamos infinitas formas de explicar o contrário. Inevitavelmente somos três, absolutamente autóctones, nunca convergindo, nunca dialogando e, exatamente por isso, um só. Um, outro e outro. Se fossemos apenas dois, rumaríamos irrevogavelmente para um complemento estático e tudo, tudo que é, age ou muda, iria parar sem que houvesse esboço de movimento, não existiria. Por sermos tríplices é que o movimento se mantém, tendo, como conseqüência direta, o tudo, de que é composta sua causa.

A essa altura deve ser, é, e será dito que nossas vozes, que falam em conjunto, devem dizer algo em separado para que você possa saber que vê nossa morada. Haverá um mínimo de interferência:

Eu estou. Em meu, em cada lugar. Em cada sombra que cada grão de poeira lança sob e sobre todos os lugares. No centro exato do tempo. Em meio ao equilibro do meu rosto sobre uma pétala específica, de tamanho ínfimo e localização improvável, onde comparo o gosto de corpos celestes lançados pelo nascimento de uma estrela com o dos que são tragados pela morte da mesma. Lá encontro minhas costas e, por vezes, meus olhos. Destes olhos me vejo, vagando através das idéias que circulam entre as vezes em que o absurdo é pensado por todo e cada ser humano que irá provar da existência. Dentro de uma bolha de ar, que repousa entre as paredes do tosco recipiente, que guarda um líquido que ainda será considerado sagrado, afago as entonações já feitas dos sons que vestem os extremos do universo. Paro para sentir o aroma de cada aspecto de um evento matemático. Presencio os reflexos de luz nos olhos de todos os animais de todos os tempos. Ouço a melodia de um planeta desabitado, a melodia de um planeta habitado. Falo com minha voz no vácuo. Os limites, os infinitos limites inimagináveis de tempo e espaço, tão exatos quanto mutáveis e inexistentes, crescem. Esta é minha única certeza: a existência, e a possível existência se expande. A existência se expande para um lugar sobre o qual só é possível fazer falhas conjecturas. E quando a existência lá chegar, lá estarei eu. Eu que estou em tudo, talvez esteja somente em meio ao nada. E espero.

Eu posso. Carrego uma estrela através da noite, coloco-a perto da boca. Desloco os eventos ocorridos entre distâncias inatingíveis de cantos opostos de universos gêmeos entre meus instantes. Dobro a luz. Toco nas cores que preenchem o invisível. Não faço nada. Faço o nada. Cavalgo um inseto através de todos os momentos importantes da história. Moldo a existência de todos os acontecimentos: do nascer da primeira estrela ao microorganismo ínfimo que paira entre as reentrâncias plásticas de uma estúpida embalagem, que nunca chegará a ser usada. Levanto um tecido pútrido que, por descuido, caiu no solo ordinário. Mudo uma situação que não deveria ser mudada, levando a realidade a seguir minha momentânea arbitrariedade, imprevisível e sistemática. Deixo uma linha em branco. Vou até o centro de uma rua imaginária para coordenar a ordem dos pingos da chuva, esta real, que irá cair esta tarde, em seu mais melancólico momento. Impeço a resolução de um problema que traria um fim. Trago a cabeça da serpente para perto de sua cola, deixo o tempo se unir. Através da boca de uma criança, digo que, se eu tudo posso, eu tudo devo, transformando a totalidade do poder em algo idêntico à escravidão e à inexistência.

Eu sei. A mais abstrata das idéias ainda por nascer é tátil como o tecido do qual são feitos os ventos. A lógica das coisas inanimadas, cuja forma assemelha-se a uma conversa com o tempo, me é clara como as vozes da terra. Compreendo a coordenação de energia emanada pelas estrelas durante milhões de anos após suas mortes, em busca do balé de músculos que compõem o sorriso. O próprio caos tem sua linguagem e sua vida que percorre todos os cantos do que é possível, movendo sua lógica através de cada ato físico ou não que ocorra. Ainda assim sua mensagem é extremamente simples e bela. Toda esta significação em uníssono pode, e não, se assemelhar a um som ou zumbido que, à medida que cresce, torna-se incompreensível para mim.

Nada é além, tudo se move conforme a dança que ditamos e nos é ditada, sendo este o momento em que devemos explicar o nosso lugar. Nossa morada é composta por paredes imaginárias, que desde sempre se insinuaram nos ápices das evoluções. Sempre foi e sempre será a partir do momento em que ela esteja completamente configurada, que o fogo da vida se fará realmente sentido. Foi o primeiro lugar a ser articulado e também será o último. Este lugar já vestiu várias formas apenas neste existir, sendo que apenas uma das variantes usuais, nesta vertente de tempo, será descrita agora: A primeira das paredes aparece em um de nossos lados. Ergue-se e segue até acima de nós, e pára. Ainda que nada pareça ter mudado, tudo já se move, arquitetando a si. Nós estamos, imperceptivelmente, sentados no meio do espaço necessário. Outra parede se ergue no lado oposto. Neste momento a própria existência tem uma insinuação de iluminação, um princípio e um sentido. As paredes se unem vagarosamente no alto, no céu inexato, formando um cume. Agora tudo começa a ficar mais claro. É este o terceiro e derradeiro momento. O imaginário solo, o chão que possivelmente nos sustenta, se ergue. Sobe até o ponto de exato equilíbrio entre as duas paredes, onde pode serenamente ficar. É a partir deste momento que todo o potencial começa a se realizar. Outras, diferentes moradas, são erguidas ao lado da primordial. Suas filhas, suas companheiras eternas e complementos. Seu número, ainda que limitado, é todo o infinito, o que é possível e o que nunca o será. Dentro de nossa morada perpétua somos eternamente livres. Neste momento é impossível ver-nos. Mas pode nos ver agora.

A.