início contato página anterior próxima página um conto de rafael soares duarte

A dança das moscas

Não sei o que esperar destas linhas confusas. Se ainda houver alguém vivo, se não foram todos tomados por essa maldita dança, espero que encontrem um fim para esse horror. Mas, sinceramente, não acredito nisso. Desde que os meios para escrever este relato me foram cedidos por meus carcereiros, só posso concluir que não deve existir diferença entre saber ou não o que são essas coisas que perambulam agora pelo mundo, agindo como se não fossem apenas cascas. Estou sendo encorajado por essas monstruosidades a escrever sobre o que passou, o que deve indicar até onde vai seu controle. Neste caso só escrevo para não enlouquecer, não perder o foco, não dormir enquanto não for seguro, não ser transformado em um maldito boneco articulado como o resto das “pessoas” lá fora. Estou muito cansado. Não sei há quanto tempo não durmo ou como, desde o início deste pesadelo. Espero conseguir terminar esse relato.

Engraçado como as coisas chegam ao nosso entendimento. Em um sentido amplo, como entendemos, como sentimos, como recebemos o mundo ao redor e transformamos isso em noções de existência que formam nosso sentido de realidade. Ao meu ver essas relações sempre foram tratadas de forma um tanto simplista ao deixar de lado nossa forma primeva de entendimento. Condicionados por aspectos tão diversos como cultura, vida em sociedade, conhecimento de história, família, parâmetros, preconceitos, paradigmas, televisão, economia, política, conceitos sobre sanidade, insanidade, coletividade, individualidade, deixamos de lado algo que estava presente bem antes de termos capacidade de definir as coisas com palavras. Talvez, se não houvéssemos enterrado tão displicentemente nosso instinto, não estivéssemos nesta situação.

Como simplesmente sabemos que vamos ver alguém em que pensamos ou precisamos ver? Ou que algo vai dar errado? Como parecemos saber algo não indicado pelos olhos ouvidos, tato e etc? É como se por um momento o próprio cérebro fosse formado por tecidos organolépticos que dispensassem suas terminações nervosas. Não posso evitar um sorriso ao ler o que acabei de escrever, nem de me sentir um pouco hipócrita. Há apenas uma semana atrás eu mantinha, acerca dos instintos ou qualquer coisa que transcendesse o normal, um sólido ceticismo, construído e entusiasticamente defendido por anos de educação e vida em sociedade. Mas agora minha situação me obriga a admitir que essas bases são tão frágeis que, uma vez desfeitas, não é possível restaurá-las. Assim, posso dizer que foi sentindo, muito antes de entender, que soube do infortúnio que se abateu sobre os seres humanos. Como já escrevi anteriormente, é engraçado como entendemos as coisas. Comigo foi algo tão simples que seria embaraçoso confessar se não fosse verdade: uma mosca.

Eu estava na residência de um amigo de muitos anos a fim de lhe prestar um favor. Deveria tomar conta de sua casa por dois dias enquanto ele tratava de alguns problemas em uma cidade vizinha. O primeiro dia transcorreu normalmente e, apesar da solidão opressiva que aquela casa de campo demasiadamente antiga evocava, nada digno de nota aconteceu. No entardecer do segundo dia recebi um telefonema do meu amigo avisando que, devido a pequenos contratempos que preferiu não esclarecer, chegaria somente pela manhã seguinte. Sem maiores preocupações, respondi que o esperaria. Aconteceu assim que pus o fone no gancho. O zumbido de uma mosca chegou, não aos meus ouvidos, mas ao entendimento ou, antes, uma espécie de pré ou sub-entendimento. Durou apenas alguns segundos, mas foi o bastante para causar uma péssima impressão em mim. Havia algo de errado naquele zumbido, como se este não fosse proveniente de sua fonte ordinária ou de fonte alguma. Algo que simplesmente existe e, só por esse fato, é errado e anômalo. Uma sensação incômoda que não consegui distinguir inicialmente, mas que identifiquei de forma sub-reptícia, tomou conta momentaneamente de minhas impressões. Ridículo, pensei. Mas a sensação continuava ali, como se uma lembrança anterior ao homem, guardada em nossos genes desde que saímos do mar, gritasse em minhas células para que eu lembrasse a causa desse repentino… medo.

O resto da tarde transcorreu sem incidentes e, à hora de dormir, mal lembrava do ocorrido. Dormi e sonhei. Sonhei com um episódio de minha infância, entre nove e dez anos. A cadela de nossa casa deu cria. Seis filhotes perfeitos e um sétimo natimorto. Cinco foram distribuídos entre vizinhos e amigos e o sexto, um macho de pêlo claro ficou comigo e com minha irmã mais velha. Com dois meses de vida o pequeno cãozinho apareceu doente e, antes que pudéssemos tomar alguma providência para curá-lo, sumiu. Encontrei-o alguns dias depois, sob algumas tábuas que ficavam nos fundos da velha casa. Primeiro ouvi um gemido fraco, depois o avistei. Quando levantei as tábuas, vi um ferimento bastante profundo no lado esquerdo de seu corpo. Na verdade era um buraco infeccionado onde poderia facilmente enfiar uma parte considerável de meu polegar sem encostar na carne. Enquanto pensava nisso, um movimento inconfundível dentro do ferimento do pobre cão me chamou a atenção. Uma, duas, três, quatro, cinco moscas saiam pelo buraco e tornavam a entrar, indiferentes. Fui subitamente tomado por nojo, mas, mesmo assim, me aproximei para examinar o ferimento. Havia ainda mais moscas dentro do pobre animal, além de uma quantidade enorme de larvas, num festim obsceno. Uma colônia inteira e ele ainda vivia. Sem pensar muito no que fazia, cobri o furo com um pano para evitar a saída de outras moscas, peguei a maior pedra que consegui carregar e esmaguei a cabeça do animal. Logo após, queimei o viveiro em que havia se transformado seu corpo. Ao sair daquela espécie de transe, vomitei. Meu sonho foi igual só até certo ponto. Ouvi os gemidos, avistei-o, retirei as tábuas, revivi o terror por descobrir que algo assim era possível, mas no sonho, isso também me fascinou, como se aquela estranha relação representasse algo mais. Do mesmo modo impensado com que na vida real peguei a pedra, no sonho segurei o cachorro com ambas as mãos, encaixei seu ferimento com perfeição em minha boca e sorvi a imunda comunidade que ali se formava. Depois, acabei por engolir o próprio animal, ainda vivo. Fazia isso sem alterar minha expressão facial, como se estivesse cumprindo um dever.

Acordei pela manhã, enjoado pela lembrança e, mais do que isso, impregnado pela atmosfera do que havia sonhado. Uma sensação de incômodo, de aproximação. Não uma premonição, mas uma angústia parecida com a que deve sentir o inseto preso na teia. O que não deixa de ser uma péssima comparação, já que aranhas seriam uma benção neste caso. Aranhas dentro de nossas cabeças.

Levantei, tomei café, me sentei para ler o jornal. Outra vez o zumbido. Desta vez parecia mais real e pude seguir sua fonte, que ficava junto às janelas. Afastei as cortinas e pude ver o marrom sobrecarregado do inseto gigantesco que se debatia contra o vidro. Por causa do tamanho, inicialmente pensei tratar-se de um besouro, mas chegando mais perto reconheci a forma da enorme mosca que inutilmente tentava sair por uma janela trancada com cadeado. Nunca havia visto uma daquele tamanho, com o comprimento quase como o de uma barata e de diâmetro ainda maior. Fiquei, de modo patético, assustado. Minha primeira reação foi de sair dali, mas controlei meu nojo e meu corpo. Afinal, ainda que descomunal, não passava de uma mosca. Ainda assim, com prudência insuspeita, meu corpo inteiro gritava para sair daquela casa, entrar em meu carro e sumir. Se eu soubesse do que se tratava teria obedecido prontamente meu impulso. Pensei em me afastar da janela evitando ver aquilo, mas considerando a alternativa, que seria deixá-la viva e me fazendo companhia, achei que o melhor seria eliminá-la. Não encontrei nenhum inseticida na casa, o que me deixou como única solução um pequeno assassinato à moda antiga.

A melhor arma que pude improvisar foi um pano torcido como os que eu e minha irmã costumávamos usar em nossas guerras particulares, quase sempre com escoriações em ambos e o choro do perdedor. Lentamente me aproximei e dei o primeiro golpe. Em comparação com seu tamanho a desgraçada era muito mais rápida do que deveria ser. Depois de alguns minutos de luta infrutífera, nos quais devo ter dado uma boa dúzia de golpes, a mosca desviou do pano e veio em minha direção tão rapidamente que só a percebi quando tocou em meu rosto. Tentei acertá-la com a mão, mas ela voou e pousou sob meu nariz, forçando passagem para entrar pela narina esquerda. Em pânico golpeei meu nariz, e ela voou de volta para a janela enquanto eu vomitava meu café da manhã em minhas roupas. Com raiva desferi outro golpe e desta vez acertei em cheio seu corpo que, mal caiu no chão, foi acolhido por uma pisada, nascida de todo o ódio e nojo que eu já sentira. Antes não houvesse feito isso. Inúmeros vermes se espalharam pelo chão e pela sola de meu sapato, e o resto do que havia no meu estômago escorreu pelo chão. Esbocei um falho calculo da área interna aproximada da mosca e a quantidade de vermes era inacreditável, como se alguém houvesse colocado a mão em um saco cheio dessas pequenas monstruosidades e dele retirasse um bom punhado dessa nojenta expressão mórfica da vida. Mesmo que aquilo estivesse prestes a explodir não poderiam caber tantos. Sentindo que se não saísse dali iria começar a vomitar minha bile, me afastei. Tentei me recompor, retirei as roupas sujas, tomei um banho de quarenta minutos e esfreguei tanto meu nariz que o fiz sangrar duas vezes. Já novamente vestido tentei me sentar para ler o jornal. O pior, pensei, já havia passado.

O inconfundível cheiro de vômito ainda fresco vindo da cozinha me fez recordar pungentemente o incidente, além de me lembrar da sujeira causada por minha pequena batalha. Ainda que a contragosto, me levantei para limpar meus dejetos. Assim que olhei para a cozinha, senti que alguma coisa estava errada. Meu café da manhã tão recentemente engolido e regurgitado estava lá, mas os vermes, assim como o corpo da gigantesca mosca, haviam desaparecido. Olhei para onde deveria estar a mosca esmagada. Tudo estava exatamente do mesmo modo, no mesmo lugar, exceto os pequenos monstrinhos e sua progenitora. Verifiquei embaixo do meu sapato. Uma pequena mancha úmida era parcialmente visível, e só. Tentei me lembrar se eu já havia me livrado dos vermes, mas não. Hoje é fácil perceber o que aconteceu, até lógico, mas na hora não consegui esboçar uma única tentativa de entendimento. Preferi não pensar nisso. Limpei o resto da sujeira e tentei voltar à leitura do jornal.

Algum tempo se passou antes que acontecesse, mas obviamente uma parte minha já esperava por isso. Tão subitamente quanto da primeira vez, o zumbido. Uma pequena mosca do mesmo marrom sobrecarregado voava rente a minha cabeça. Procurei espantá-la com o jornal, com a mão, mas era impossível atingi-la ou mesmo vê-la com clareza pela proximidade com que voava de meu rosto e cabeça. Cobri prudentemente meu nariz e boca com a mão livre. Desapareceu. Tornou a voar e desapareceu novamente, e todo o tempo reinava aquele zumbido infernal que minava qualquer tentativa que eu pudesse esboçar de racionalizar o que acontecia. Um medo quase animal se apoderava de mim a cada instante, num crescendo vertiginoso que não permitia contestação. Repentinamente, o zumbido cessou e senti uma forma diminuta pousar na minha perna. Não olhei para onde ela devia estar e apliquei um golpe com o jornal enrolado. Não acertei nada, mas ao mesmo tempo o zumbido retomou seu lugar na casa. Novamente o silencio, e a sensação de toque no braço. Resolvi mirar desta vez, mas não havia nada lá. Ainda sentia a levíssima sensação de toque, a minúscula pressão que o corpúsculo causava, mas não enxergava nada. Pensei tratar-se de uma brincadeira armada por meu corpo e meus nervos, já devidamente abalados, mas como a sensação continuava, tentei forçar a visão para me certificar de que estava somente imaginando coisas. Cheguei meu rosto mais perto de meu pulso esquerdo e vi que aquilo estava ali. De alguma outra forma, além de nossa estreita noção de estar presente fisicamente, aquilo estava pousado em mim sem que eu pudesse ver qualquer coisa além do minúsculo movimento dos pêlos do meu braço.

Gritei, corri até o banheiro, abri a torneira o máximo que pude e coloquei meu braço sob o jato de água. Sabia que era inútil já que o zumbido recomeçou no instante em que me levantei bruscamente. Mesmo assim, sentia vontade de esfregar minha pele até abrir um buraco onde a mosca havia pousado. Assim que esse pensamento chegou à minha mente, parei de esfregar o pulso. Desliguei a torneira e tornei a me sentar. Por algum motivo, sabia que não deveria me ferir. Nesse momento um silêncio sepulcral tomou conta da casa. Senti como se me culpassem pelo fim de uma grande e prazerosa brincadeira. Pensei que, talvez, fosse isso mesmo.

Por algumas horas nada de anormal tornou a ocorrer. Preferi não pensar no que havia acontecido e tratar tudo como imaginação. Assim funciona nossa racionalidade. Quando aquilo que surge na nossa frente não se ajusta ao nosso condicionamento, negamos sua existência ou possibilidade. Foi o que fiz ainda que, desta vez, com dificuldade. Finalmente consegui ler o jornal, ainda que sobressaltado. Quando virei a última página, lá estava ela, arrogantemente, pousada no canto superior da folha. Voou silenciosamente para fora, pela janela. No mesmo instante chegava aos meus ouvidos um som de motor que reconheci como sendo o do carro de meu amigo. Algo gritou em meu cérebro. Alguma coisa simplesmente errada estava acontecendo. Não consegui me controlar. Não entendi qual relação se estabelecia entre o que acontecera e a chegada de meu velho amigo, mas não pude esperar pela resposta. Quando a porta foi aberta, empurrei-o violentamente. Ele caiu de costas, eu corri até meu carro. Dei a partida, virei o carro na direção da frente da casa, e o vi vindo em minha direção com o aspecto preocupado. O primeiro pensamento que veio a minha cabeça foi o de parar e falar com ele, já que eu sinceramente não sabia o porquê da minha reação. Foi então que notei seus olhos, fechei os meus e acelerei.

O carro sacudindo sobre seu corpo, a viagem até a cidade, o caminho até minha casa, a limpeza incrivelmente rápida e quase automática do sangue na frente do carro, o trancar da porta, tudo foi registrado por uma pequena parcela de minha consciência. Todo o resto lutava para entender o que eu havia visto. Aquilo não podia ser humano. Era, em parte.

Sua aparência era perfeitamente normal, exceto pelos olhos. Em certa medida, lamentei tê-lo empurrado no momento em que entrou, pois quando o avistei do carro não pude precisar o que era aquele movimento. A única lembrança que me vinha à mente foi a de desenhos animados, quando um personagem indicava que iria chorar e suas íris tremiam ao se encher de lágrimas. A diferença é que seus olhos não estavam cheios de lágrimas, ainda que tremessem freneticamente. Mais do que isso, era um movimento totalmente desordenado, fragmentado como se dentro de seus olhos uma pequena TV insistisse em manter-se fora do ar. Tentei me acalmar. Se eu queria saber o que se passava, e não tinha certeza se queria, deveria me tranqüilizar, afinal não sabia como fazer alguma coisa a respeito. Além disso, não suportava mais a solidão daquela situação. Precisava de alguém que me fizesse sentir que isso não era outro sonho. Precisaria de ajuda.

Chamei minha namorada. Disse-lhe, ao telefone que precisava vê-la o quanto antes. Ela disse que ficou preocupada com meu tom de voz e que viria assim que possível. Imaginei o que diria se eu tivesse contado toda a verdade. Talvez dissesse a mesma coisa, do mesmo modo, com a mesma entonação. Esperei por ela depois de trancar bem todas as portas e janelas, verificando cada possibilidade de frestas. Naquela hora, o mundo exterior me pareceu absurdamente mau. Deitei, não consegui descansar. Sempre que fechava os olhos, uma sucessão de imagens desconexas se agitava em minha mente, o que me obrigava a abri-los antes de reconhecer o que via. Uma hora se passou, duas, três. Batidas alegres e ritmadas na porta, imediatamente reconhecidas. Engraçado como uma coisa simples como essa pode tranqüilizar o maior dos medos. O medo de estar sozinho. De ser uma mente incomunicável. Não como um gênio, como um ser humano. Essa foi a última vez em que senti isso, essas batidas na porta, seguidas pela sensação de não estar só.

Abri a porta. Usava calças, uma camiseta e óculos escuros, e estava incrivelmente linda. Talvez isso tenha sido o pior. Como ousaram profanar a imagem da pessoa que eu amei fazendo com que tudo parecesse normal? Antes o horror, antes a verdade, ainda que apocalíptica. Disse que estava preocupada pelo modo como falei ao telefone, me beijou, disse entre risadas que meu rosto estava um lixo, pediu que eu contasse tudo o que acontecera, ordenou com ternura que eu sentasse, sentou-se na minha frente para ouvir o que eu tinha a dizer e retirou os óculos. Haviam moscas dentro de suas íris. Mais do que isso, moscas haviam tomado o lugar de sua íris. Moviam-se convulsivamente junto à parede do olho como se estivessem em uma orgia, uma dança dionisíaca de dominação. Foi quando entendi que éramos uma brincadeira para essas coisas. Para meus olhos castanhos, uma mosca marrom. No lugar do quase etéreo verde dos olhos dela, moscas verdes. Não emiti um som. Ela ainda sorria, falando sobre como eu parecia estranho quando fui em sua direção. Joguei meu corpo de encontro ao dela e caímos no chão. Segurei seu rosto e, com toda força que pude reunir, enfiei meus polegares naquela mácula em sua perfeição. Pude sentir, quando seus olhos explodiram, o movimento detestável daqueles pequenos monstros. Ela gritou brevemente, e me apoiei sobre o peso do meu corpo, voltando meus dedos para cima até atingir seu cérebro, retirando o controle das malditas sobre a pessoa que eu amava. Seus braços pararam de se agitar, ela parou de se mover.

Eu chorava copiosamente, sem coragem para sair de onde estava, emitir um som ou retirar meus polegares de seus olhos. Por um tempo fiquei ali, vazio. Desta vez a sensação de solidão veio mais forte. Não sabia o que acontecera com o mundo, assim como ainda não sei. Um movimento me chamou de volta à realidade. Dentro de suas órbitas, algumas das malditas continuavam vivas. Tocavam em meus dedos com movimentos rápidos e suaves em contraste com a abominação que eram. Uma golfada fez meu estômago tentar retirar os últimos resquícios do café daquela manhã agora tão longínqua. Apenas uma espessa e rala baba levemente verde escorreu pelo canto de minha boca. Pensei em como fazer para matá-las com os dedos inutilmente presos junto a elas como estava. Levantei meu corpo sem retirar meus dedos e comecei arrastá-la com minhas pernas uma de cada lado de seu corpo. Tarefa bastante difícil, que só o desespero tornou possível. De algum modo, cheguei até o banheiro. Abri o vaso sanitário com uma das pernas. Cansado, levantei o corpo do que fora minha namorada, meu amor, com suas costas escoradas na privada e forcei sua nuca na direção das costas. Não sem empreender uma pequena luta, enfiei sua cabeça dentro da privada. Uma vez dentro da água, achei que as moscas não sairiam. Retirei meus dedos, um após o outro de suas órbitas e segurei-a pelos ombros. No momento em que fiz isso, seu corpo ameaçou cair e, em um momento de desespero, forcei-o contra a louça da privada. Fiquei assim por certo tempo até, por alguma razão, sentir que já não era necessário fazer tanta força. Lentamente, diminui a pressão no corpo, apavorado pela idéia de uma queda repentina. Agüentaria tudo menos ter aquelas coisas voando novamente sobre mim. Soltei-a. De algum modo se manteve perfeitamente equilibrada, ainda que eu soubesse que precariamente. Uma idéia me ocorreu. Num impulso corri até a cozinha e voltei com um martelo. O corpo continuava lá, em um estranho equilíbrio. Com um gemido quebrei suas duas clavículas e sem grande esforço, encaixei-a pelos ombros nas bordas do vaso sanitário. Pude então agir com mais calma. Improvisei tiras de pano, peguei linha grossa, agulhas, cola instantânea e inseticida. Encharquei dois pedaços de pano com inseticida e enfiei dentro do vaso até chegar em suas órbitas, cheias de água sanitária. Retirei sua cabeça do vaso sanitário e carreguei-a para a sala. Enquanto fazia isso, uma crise de choro ameaçou tomar conta de mim e tive que fazer força para não ceder a ela. Sabia que com o choro viria o desespero e que ambos só iriam embora acompanhados por minha sanidade. A única forma de fazer o que tinha em mente era me mantendo frio e voltado para minha sobrevivência. Limpei as duas lágrimas que caíram, as duas últimas a que me permitiria. Coloquei-a no tapete da sala e peguei minhas ferramentas improvisadas. A partir daí me desliguei. Reforcei o tampão no buraco de suas órbitas com mais uma bucha de pano com inseticida em cada, costurei-as e fechei com cola instantânea. Fiz o mesmo com sua boca e nariz e selei seus ouvidos com cola. Despi-a, fechei seu ânus e vagina do mesmo modo. Depois de me certificar que não havia nenhum ferimento aberto em seu corpo, coloquei-a em meu quarto sobre a cama. Sentei e pensei.

Não era possível saber o que havia com o mundo. Quando essas insignificâncias tornaram-se ameaças? Estavam por toda parte desde sabe-se lá quando. Monstros obscenos. Refleti. Nada iria me fazer sair de casa, mas eu tinha que fazer algo, lutar. Ao menos não deixar que meus entes queridos ficassem a mercê de um destino tão indigno como este. Peguei minha agenda. Fui até o telefone e liguei para minha irmã, pai e mãe, convidando-os para um jantar.

Haviam quatorze pessoas empilhadas em minha casa, entre parentes e amigos quando fui pego. Fui descoberto pelo cheiro dos corpos que começavam a apodrecer. Tragicamente engraçado, mas óbvio, as moscas foram atraídas pela carniça. Minha porta foi arrombada por marionetes vestidas como policiais. Vi seus olhos freneticamente tremendo em minha direção. Depois, nada. Acordei em um lugar totalmente branco, com hematomas pelo corpo e rosto, e uma terrível dor de cabeça. Usava uma camisa de força. Uma casca de humano vestida como médico, com enormes moscas dançantes em lugar dos olhos me interrogou longamente, perguntando por fim, por que fechar os orifícios dos corpos. Respondi que, se fosse deixado sozinho, explicaria tudo por escrito. Como já disse no inicio do relato, fui encorajado a fazê-lo. Fui levado para a cela acolchoada onde até agora estou. Perguntei as horas para o enorme homem-mosca que me alcançou papel e caneta. Eram seis da manhã. Não sei que horas são agora, mas a dor de cabeça tornou-se infernal. De qualquer modo, acabei. Não tenho esperanças de que isso chegue a alguém, mas, se chegar, tome cuidado. Talvez sejamos uma minoria agora. Uma minoria ridícula, esmagável. Espero ainda poder ver um outro humano autônomo. Espero não ser o último.

Descobri a razão da minha dor de cabeça. Sabia que algo estava errado. Com medo do que encontraria, pressionei meu dedo indicador esquerdo contra a base de minha pálpebra inferior direita. Senti um estranho tipo de pressão enquanto empurrava, até meu olho cair em minha mão, pendurado em suas ligações nervosas. Puxei-o e olhei com a atenção sem profundidade que um só olho permitia. Indistintamente um verme se contorce no fundo de minha pupila. Agora preciso ser rápido, antes que cheguem. Vou enfiar a caneta dentro do buraco do meu olho e me atirar contra a parede para alcançar o cérebro. Morro livre. Espero, talvez, acordar.