capa desta edição contato página anterior Romeu Martins

Notas sobre Promessas

O ambiente é marcado por um clima instável, com enchentes, pequenas nevadas, ciclones e grandes variações na temperatura. No campo político, um novo governo pratica uma espécie de ditadura não assumida, mantendo a ordem através de altos impostos e de uma força policial fortemente armada que atua de maneira brutal. Nesse contexto, um grupo de jovens - escondendo seu rosto atrás de máscaras e atuando sob o mesmo nome - descontentes com a situação do ambiente à sua volta, planeja pequenos atos de desobediência civil. Ainda que atuando de forma pacífica, em um destes atos algo acontece de forma imprevista, causando a explosão de uma bomba. Enquanto tentam provar sua inocência e justificar suas ações, o fim parece estar cada vez mais próximo.

A descrição acima foi feita pelo próprio autor e se refere à sua cidade natal, Florianópolis em um futuro próximo no qual se passa seu projeto de história em quadrinhos. Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo é o nome do projeto de Pedro Franz, 26 anos. Programada como uma série em 12 capítulos, com tamanho variando entre 12 e 16 páginas cada um, a HQ havia sido publicamente anunciada no dia 12 de abril deste ano, quando o quadrinista inaugurou o blog Notas sobre o fim por onde ele pretende publicar o material na íntegra, disponível para download gratuito em arquivos em .pdf. O primeiro deles, surgiu no início de julho, após um atraso de dois dias no cronograma. Além disso, abriu um espaço para discutir a obra e suas influências com sua audiência. Como ele mesmo escreveu: "O objetivo deste espaço é aprofundar uma investigação que relacione teoria e prática e funcionar como ferramenta de relação entre autor e público. Além de utilizá-lo para apresentar o projeto - ou seja, a história em quadrinhos - pretendo postar textos sobre a produção da obra, imagens, esboços, novidades, autores que me influenciaram."

A série atual não é a primeira experiência de Franz com os quadrinhos. Entre 2002 e 2003 ele produziu duas edições de um zine chamado Café com Leite, mas como disse, em uma conversa em um bar na cidade onde se passa sua história atual, não era algo sério ou pretensioso. Na mesma época também foi convidado a participar de uma mostra de quadrinhos ligada ao Salão de Humor de Piracicaba, mas com proposta diferente daquela ligada ao título do famoso evento do interior de São Paulo, pois os trabalhos não eram humorísticos. Então veio uma pausa nessa breve relação com o meio. Em um intervalo de meia década, ele morou por dois anos na capital da Argentina, recobrou o interesse pelas historietas, descobriu publicações locais como a Fierro e quando retornou ao Brasil e a seu curso acadêmico, na UFSC, apresentou como trabalho de conclusão do curso de design uma monografia ligada ao tema. Nela, Franz procurava fazer a ponte entre quadrinhos, design e arte ao analisar a obra do uruguaio Alberto Breccia (1919-93), o artista que mais admira neste meio. Outros autores que ele cita como possíveis influências são o argentino José Muñoz e o japonês Taiyo Matsumoto.

Com esse retorno ele começou a processar as idéias que dariam origem à Promessas... vamos abreviar aqui o título quilométrico. Aliás, o gosto por longos títulos parece ser uma característica do autor, que também cursou Artes Plásticas, pois um outro projeto de HQ, paralelo, leva o nome de Uma casa construída com cascas de ovos. Apesar de ter mais páginas concluídas que o atual, o próprio Franz reconhece que esse ainda vai demorar mais a aparecer. "Mas é um trabalho bonito, eu acho." Mas retornemos às promessas e ao fim do mundo. Vamos falar das páginas, as originais, que o autor trouxe para mostrar naquele bar, na rua que leva o nome do pintor Victor Meirelles (1832-1903). A primeira surpresa possível, em se tratando de alguém que escolheu o meio digital para divulgar sua obra, é o método de trabalho do autor. Franz optou por utilizar a forma mais tradicional para produzir sua HQ, nanquim, pincel, papel.

As folhas A2 que ele exibe sobre a mesa na noite mais gelada do ano em Florianópolis foram ilustradas exatamente como fariam os quadrinistas que o inspiraram, em um mundo anterior ao das webcomics. Franz esboça a lápis e depois cobre os desenhos com a tinta negra, criando contrastes, dando a ilusão de volume, áreas de luz e sombras. Ele prevê na arte os espaços para os balões, com a fala dos personagens, e mesmo o letreiramento faz a mão, e insere mais tarde quando, então, entram em ação os softwares. O InDesign ajuda no momento da diagramação, o Photoshop corrige a perda de contraste que às vezes ocorre com o scaneamento das imagens e é usado para aplicar o cinza, tomando o lugar das antigas retículas, um material que não é tão fácil para ser encontrado pelos quadrinistas do século XXI quanto era pelos profissionais do século anterior. O processo é lento, como não poderia deixar de ser, já houve momentos em que ele passou duas horas dedicado a um único quadrinho e procura trabalhar na série todos os dias.

Tudo é feito do modo mais tradicional possível até porque Promessas... foi pensada, planejada e está sendo executada como uma obra a ser impressa, publicada de modo clássico. "A Internet surge por necessidade", ele comenta, apesar de com o tempo o meio revelar novas possibilidades a serem exploradas, como veremos. Até por sugestão de um editor com quem conversou, o catarinense concordou que o melhor modo de tornar seu trabalho conhecido era a divulgação pela rede. Se existem lugares em que um autor iniciante pode contar com uma edição impressa de seu primeiro trabalho de fôlego, com aproximadamente 200 páginas, não é o Brasil. Então, ele escolheu esta forma de divulgar e distribuir por partes sua série, tendo a consciência de que vivemos uma nova realidade, com licença livre, ou seja, copyleft. Já há um site que no lugar de fazer um link ao blog de Franz, criou novo arquivo e deixou disponível o primeiro capítulo em seu próprio domínio, uma espécie de pirataria consentida. "Tu perde o controle daquilo", reconhece. "Quero que pirateiem muito mais, que imprimam, xeroquem".

Ele calcula que nas primeiras semanas de exposição do primeiro capítulo, uma média de 20 pessoas baixaram o arquivo diariamente. Acaba se revelando uma possibilidade de democratizar a obra, ainda que a leitura no computador não seja a ideal. Afinal, ao contrário de outras mídias, como a música, em que em última análise não há perda na transposição para um meio digital, os quadrinhos clássicos ainda contam como um bastião do paradigma de Walter Benjamim: as páginas ainda conservam uma certa "aura" e assim vai ser, até o momento em que se encontre o modo de garantir a reprodutilibilidade técnica ideal na tela de algum leitor eletrônico portátil. Até lá, o papel e as HQs ainda vão manter um casamento secular. Para facilitar essa materialização, Promessas... foi composta em preto e branco e sua dúzia de capítulos podem ser agrupados em três álbuns.

Uma amostra do que os leitores podem esperar já está disponível na rede. Pedro Franz diz que pensou em um conceito-chave para elaborar esta sua obra: o "medo". Isso está presente desde o primeiro post naquele seu blog, quando ele esboçou o que viria a ser a série:

"Autotomia é o nome dado à capacidade que alguns animais possuem de se auto-mutilar em situações de perigo como estratégia de sobrevivência. Deixar algo morrer para preservar a vida. Diante da necessidade de enfrentar um perigo, lutar ou fugir, funciona como um mecanismo de defesa para se sobreviver. Partindo destes conceitos, Promessas de amor a desconhecidos enquanto espero o fim do mundo é uma fábula sobre o "medo" funcionando como crítica à moral burguesa e à intolerância contada em formato de Peter Pan pós-moderno".

Assim como a Internet surgiu para facilitar e difundir - e está servindo para promover um rico debate sobre os quadrinhos contemporâneos na seção de comentários do blog - a ambientação futurista veio para dar mais liberdade ao autor. A característica típica de Ficção Científica é para permitir ao artista falar do presente usando o subterfúgio de se referir ao futuro. Ele mesmo escreveu que, em um primeiro momento, pensou em criar cenários mais elaborados, com pontes destruídas, a Ilha isolada, novas formas de governo e de autoritarismo naquele ambiente ficcional. Mas preferiu apenas potencializar o que já vê nos dias de hoje e usar em seu trabalho, de modo a analisar as ações e reações provocadas por aquele sentimento - o medo - como ele move as pessoas e o que pode gerar em resposta. Um modo, com algum afastamento brechtiano, de estudar temas como terrorismo, pirataria, repressão política e policial em um cenário ao mesmo tempo conhecido, particular e universal.

Ainda é cedo para falar sobre Promessas... como uma obra integral, se ela vai ser capaz de amarrar todos os instigantes pontos que se propõe a abordar. O primeiro capítulo, que está disponível para todos lerem e julgarem, abre com uma abordagem bem intimista, como um painel das impressões coletivas dos diversos personagens, vários pontos de vista compondo um plano geral. A arte me lembrou de fato trabalhos de um dos quadrinistas relacionados pelo autor, Taiyo Matsumoto, o mangá underground Preto e Branco, publicado no Brasil pela Conrad. Mas me lembrou bem mais, na construção dos personagens, o brasileiro Lourenço Mutarelli que, pelo menos conscientemente, não faz parte daquela lista já citada. Quanto aos conceitos, em um primeiro momento me fez pensar mais em material anglo-saxão, como DMZ, do americano Brian Wood, e Invisíveis, trabalho mais autoral do britânico Grant Morrison, que em obras latino americanas. Como deste momento em diante, se encerra o trabalho do resenhista, articulista, repórter, entrevistador, estarei na condição de outro leitor, como os da Ciberarte, acompanhando o blog Notas sobre o fim, e aguardando os próximos capítulos de Promessas.