Walk me
ela fica bem mais elegante sóbria sem aquela sombra nos olhos sobras de maquiagem ou grampos no cabelo ágil com as mãos num jogo de pega-dedos livre dos antidepressivos pronta pra andar pra qualquer lado e saltar da rua pra calçada pra rua pra calçada livre da minha mão. era assim que eu a via e assim ela era quando a encontrava no final da tarde era verão e os dias eram longos e ela me mostrava cicatrizes enquanto buscávamos um pôr de sol perfeito. eu era jovem e ingênuo e ela era ainda mais jovem mas tinha feito muitas coisas e sua vida não tinha sido fácil. todo mês tinha que fazer exame e provar para os pais que estava limpa. eu lhe mostrei alguns poemas imaturos e ela me mostrou um livro que tinha roubado da biblioteca do colégio. fazia muito calor à noite e bebíamos como dois camelos as cervejas que eu comprava eu não pensava em sexo ela fumava marlboro ela usava calcinhas cor de vinho e roupas rasgadas ela estudava de manhã e tínhamos que acordar cedo. mas no final da tarde nos encontrávamos para andar e sentávamos nos piores bares e bebíamos enquanto ela falava de sua profunda tristeza. até o pôr do sol ela já estava muito melhor e eu me sentia bem fazendo-a sentir tão bem. e jogávamos o pega-dedos (ela sempre vencia) e ela me beijava (eu gostava do seu gosto de cigarro e do toque do metal cravado em sua língua) eu gostava de vê-la leve e saltitante mas também gostava de encontrá-la triste para poder operar a mudança. depois andávamos até a ponte depois andávamos pela f. schmidt. e um dia ela não me procurou mais. eu sabia que ela estava bem sabia que não precisava mais de mim e passei a andar sozinho.
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