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Sentinela
Um gato velho
O jantar
Meu desterro
Vácuo
Peças da noite
O banquete
Na garrafa
Faz tanto calor
 

Walk me

ela fica bem mais elegante sóbria
sem aquela sombra nos olhos
sobras de maquiagem
ou grampos no cabelo
ágil com as mãos num jogo de pega-dedos
livre dos antidepressivos
pronta pra andar pra qualquer lado
e saltar da rua pra calçada pra rua pra calçada
livre da minha mão.
era assim que eu a via e assim ela era
quando a encontrava no final da tarde
era verão e os dias eram longos
e ela me mostrava cicatrizes enquanto
buscávamos um pôr de sol perfeito.
eu era jovem e ingênuo
e ela era ainda mais jovem
mas tinha feito muitas coisas e sua
vida não tinha sido fácil.
todo mês tinha que fazer exame
e provar para os pais que estava limpa.
eu lhe mostrei alguns poemas imaturos
e ela me mostrou um livro que tinha roubado
da biblioteca do colégio.
fazia muito calor à noite e bebíamos como dois camelos
as cervejas que eu comprava
eu não pensava em sexo
ela fumava marlboro
ela usava calcinhas cor de vinho
e roupas rasgadas
ela estudava de manhã e tínhamos que acordar cedo.
mas no final da tarde nos encontrávamos para andar
e sentávamos nos piores bares
e bebíamos enquanto ela falava de sua profunda tristeza.
até o pôr do sol ela já estava muito melhor
e eu me sentia bem fazendo-a sentir tão bem.
e jogávamos o pega-dedos (ela sempre vencia)
e ela me beijava (eu gostava do seu gosto de cigarro
e do toque do metal cravado em sua língua)
eu gostava de vê-la leve e saltitante
mas também gostava de encontrá-la triste
para poder operar a mudança.
depois andávamos até a ponte
depois andávamos pela f. schmidt.
e um dia ela não me procurou mais.
eu sabia que ela estava bem
sabia que não precisava mais de mim e passei a andar sozinho.