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Um gato velho

era um sábado de manhã
um dia fresco e ensolarado
como deveria ser
ele escolheu o melhor dos cartuchos
seria o dia de ser homem
completo
foi até a varanda e carinhosamente
limpou e lubrificou a espingarda
a mãe quis saber a razão
era dia de ser
homem e ele não respondeu.
carregou a arma
andou arrastando as chinelas
foi até a calçada e sentou
chamou pelo gato e ele veio
mourisco e triste como um gato velho
a ponta do cano ficou a meio metro da cabeça
do bicho
o dedo no gatilho moveu leve e firme
uma cartucheira calibre 28 faz muito barulho
as pequenas esferas de chumbo
fizeram
buraquinhos minúsculos na cabeça
por onde vertia o sangue
enquanto o animal se contorcia
“sete vidas” pensou e sorriu pela metade
um traço de hiena em sua boca repuxada
ainda sentado
tirou o cartucho
cheirou a fumaça da pólvora no cano
o pai apareceu e quis saber
o que era
“matei o gato velho”
“muito bem, agora vá enterrá-lo”.
o gato ainda esperneou um pouco mas
sem emitir som algum
depois virou-se
de lado e dormiu.
era um sábado de manhã
um dia fresco e de céu limpo
um dia como
todos os outros
os outros que viriam depois.