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Sentinela
deitado em lençóis sujos sem ter o que fazer ou sentado no sofá um copo de café pela metade olhando para a televisão desligada cheia de mundos mortos acontecendo atrás da tela cinza-escuro ou com um caderno em branco sobre os joelhos esperando por aquela idéia maravilhosa afundado neste lúgubre silêncio do sul da ilha acontece que ouço o barulho do motor do ônibus que pára de imediato começam as palpitações e meus olhos estalam os dedos se esticam e lembro que deveria ter organizado a bagunça da casa estico minhas orelhas e presto toda a atenção. fico quieto como um gato que caça mas nada acontece e volto à posição de precário repouso. depois é um carro que pára meus cabelos eriçam. o telefone não tem chamado já faz muitos dias os pratos estão sujos sobre a mesa e a pia deve estar no fim o papel do banheiro. ainda tento perceber algo mas não há mais nenhum ruído próximo e o tempo passa em seu ritmo o vento balança os galhos das árvores um pássaro voa em algum lugar os rios correm as plantas crescem. mais um ônibus pára forço para me distrair mas o silêncio do sul é tão profundo que posso ouvir os passos dos passageiros desembarcando por alguma razão obscura consigo perceber entre eles uma marcha familiar e de novo palpitações, pelos eriçados e suor na palma da mão algo me aperta a garganta subindo do peito os passos se aproximam e paro de respirar ouço um cupim corroendo a mata-junta sob a janela ouço um portão correr sinto um touro engarrafado agonizando entre meu pescoço e a boca do estômago solto o ar devagar e abro bem os olhos como para ver através da parede o portão se fecha e cães festejam é uma voz de mulher mas não é ninguém é a vizinha e seu portão sua casa e seus cães. e aqui tudo continua imóvel eu continuo mudo diante da televisão desligada o caderno em branco os lençóis sujos a louça sobre a pia. passam assim os dias as estações e os anos e por mais que se faça espera por mais que se queira ter fé [não sabeis o dia nem a hora] ninguém nunca vai chegar.
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