capa desta edição contato página anterior próxima página Ariadne Costa

Rodoviária

Chegou meio-dia e meia, porque disseram no telefone que o ônibus de São Paulo desembarcava a uma. Na hora do almoço, a mãe falou, mas o que é hora do almoço? Tem dia que a gente almoça às doze, ou às duas, tem dia que nem almoça. Hoje, por exemplo, não almoça. Foi buscar o irmão só por ir, ele nem sabia. É que então tinha um meio de passar as horas. E ele sendo irmão, podia ser que entendesse. Podia ser que só reparando nos olhos percebesse que ela estava triste, triste de morrer e ia ter abraço de qualquer jeito, porque quase nunca se viam. Vai ver ele compreendia e ela não ia precisar explicar. Porque o abraço ela queria muito, precisando até, mas falar não dava. O rapaz do portão de embarque contou que já tinham chegado dois ônibus de São Paulo, o último às onze e trinta. Mas o moço do guichê disse meio-dia, que tinha chegado meio-dia. E outro agora só as seis, foi o que ele disse. Se fosse assim tinha perdido, não adiantava esperar. Vai ver disseram errado no telefone. Mas quis mais acreditar no rapaz do portão - que além de tudo era mais simpático - que devia ter mais um chegando a uma hora. E esperou. Abriu um livro que contava história de gente mais infeliz ainda, que era para acreditar que viver podia ser bem pior. E se o ônibus já tivesse ido mesmo, se o irmão chegando já tivesse se virado sozinho, podia só sentar e ler um pouco e ver se enganava até umas duas. E depois, se não tivesse outro meio, se não encontrasse ninguém, era o jeito deixar doer, a tristeza comendo por dentro.