capa desta edição contato página anterior próxima página Hilda Ferreira

A Coisa

Eu devia ter adivinhado. Cheguei às quinze pras cinco e não vi ninguém, isso já era um sinal de que as coisas não iam lá muito certinhas, mas não ligo pra sinais e resolvi entrar, foi então que topei com aquele troço em cima da mesa, aí quis sair mas já era tarde. Ele me pegou bem pelas orelhas, mas alguma parte me batia nas costas como se fosse um rabo pesado que eu não pudesse ver, aí meus olhos arderam e o cheiro parecia algum veneno e eu ali tentando me defender com as mãos e chutes numa coisa mole que se enrolava nas minhas pernas, um pesadelo que até hoje me persegue e o pior é que ninguém acredita.

Como é que todo mundo sumiu de lá sem ter visto nada? Marinete disse que Ranilson faltou porque passou mal e Jussara saiu mais cedo porque recebeu um telefonema urgente. Sozinha ela não quis ficar me esperando na sala, os corredores vazios, podia aparecer algum ladrão, então resolveu trancar as gavetas mas a porta ela não podia assim tão antes da hora, se eu chegasse de repente como cheguei ficaria do lado de fora com aquele monte de questionários na mão que nem uma besta. O que me arruinou foi o senso do dever.

Depois de lutar muito e perder o fôlego acho que desmaiei, o que devia ter feito desde o começo, mas quando acordei não vi mais a coisa. Fiquei até feliz por não ter morrido e corri para o ponto de ônibus, mas nem me lembrei de tirar os questionários da bolsa, fui assim mesmo com todo aquele peso na condução cheia, em pé mas feliz por não ter morrido. Aí, no meu quarto, de repente me deu um medo de abrir a bolsa e ver que o peso não era só dos questionários, eu fugi para a rua até a hora em que o pessoal deveria chegar do trabalho mas nesse dia acho que eles demoraram mais do que de costume.

Pior foi o momento de contar o que tinha acontecido, a gente não quer ser tratada como maluca, então tem que explicar direitinho e provar que não está inventando histórias, mas eu não tinha como provar nada, só estava nervosa e descabelada mas sem ferimentos nem rasgos na roupa, e mesmo que estivesse ferida poderia ter sido qualquer acidente ou violência comum, mas um ataque daquele tipo é mais difícil de explicar mesmo.

Marinete é minha amiga e eu contei tudo mas pedi segredo porque podiam me despedir pensando que era desculpa pra sair mais cedo, uma desculpa bem pior que a dela, a do Ranilson e a da Jussara que sempre arranjam algum modo de chegar tarde ou sair antes ou faltar e logo eu que faço tudo o que me mandam e tenho responsabilidade é que tive que pagar o pato, eles me mandaram embora porque eu estava muito cansada, com esgotamento nervoso. É claro que fiquei com pavor daquele lugar, qualquer um ficaria depois do que eu passei, mas a minha família achou que eu inventei essa história pra ficar em casa vagabundeando e enquanto eu não arrumar outro emprego tenho que fazer todo o serviço doméstico. Grandes coisas, eu já fazia quase tudo mesmo.

Mas no meu quarto eu não entrei mais. Revistaram a bolsa e não encontraram nada, mas eu sabia lá se a coisa não tinha se metido no armário? e ninguém quis esvaziar gavetas pra conferir porque ia dar muito trabalho, então eu resolvi dormir no sofá da sala mas antes preguei uma barra de madeira embaixo da porta do meu quarto e de lá nada pode sair, nem uma pulga. Para dentro de casa, eu digo, porque para fora pode, eu deixei dois palmos da janela abertos.

A família e os vizinhos não me acreditam. Pensam que fiquei maluca mesmo ou que estou fingindo só pra me aproveitar deles, me perguntam se já melhorei do nervoso e me indicaram um centro espírita, mas ninguém acredita no que eu contei. Acontece que hoje de madrugada fui ao banheiro e senti um cheiro parecido com aquele e meus olhos arderam e me deu um pavor de repente porque eu pensei e se a coisa entrou em mim pelos ouvidos?

Agora estou mais calma e até pensei em voltar pro meu quarto, porque se ela estiver dentro de mim não tem mais jeito mesmo, mas agora estou pensando que talvez seja bom ter alguma coisa assustadora lá dentro pra me defender dessa família, desses vizinhos e desses amigos que não ajudam no momento do perigo.