capa desta edição contato próxima página Aleph Ozuas

Bichos

Enquanto estava no ônibus imaginei ter visto um pingüim na calçada abanando para mim, faceiro e branco e preto - como esses pingüins que a gente vê de fraque nos desenhos animados. Mas num piscar de olhos ele não estava mais lá. Olhei à minha volta para verificar se eu havia sido o único "sortudo" a ver um pingüim em pleno verão andando pela calçada daquela rua movimentada. Ninguém exprimia nenhum sentimento de surpresa. Observei apenas rostos preocupados, sonolentos, sádicos - mas nenhum espantado. Tolice minha, ilusão de noite mal dormida: só podia ser isso. Mas, raios!, o desgraçado do pingüim não me saiu da cabeça o dia todo. Maldita ave polar! A mente prega peças na gente. E eu nem sabia se tinha pingüim no jogo do bicho; cheguei a parar na frente de uma banca de jogo para apostar, mas imaginei o bicheiro babando de rir enquanto eu contava a história para ele.

Um novo dia. Uma noite bem dormida dessa vez. Bom esquecer o tormento do dia anterior, o dia infernizado pela imagem de um pingüim. E lá estava eu novamente no ônibus, aproximando-me da fatídica calçada. Ria de mim mesmo enquanto a mulher a meu lado olhava-me intrigada e pensava: "maluco". Olhei com bravura para a calçada e vi: não enxergava mais nenhum pingüim, mas com certeza o que havia lá era um canguru! Berrei, sei lá porque berrei. A mulher que me olhava saiu do meu lado e foi sentar-se em outra poltrona. Todos olhavam-me intrigados, alguns riam e cochichavam. E eu, idiota, louco, delirante, sofredor, bestificado, olhava para a calçada vazia, vazia de bichos. Nenhum canguru ali. Foi outro dia horrível, pior que o anterior. Depois do meio-dia falei para o meu sócio que não tinha mais condições de trabalhar. Quando ele perguntou o porquê, apenas respondi: "bichos".

Em casa, enquanto ouvia o barulho do ar condicionado velho soluçando, tentava entender o que se passava comigo. Aquilo não era lógico. Cogitei várias hipóteses, talvez houvesse um zoológico ali perto, quem sabe os bichos estavam passeando ou algo assim. Não. Impossível, nunca tinha ouvido falar em um zoológico no meio de todos aqueles prédios. Quem sabe alguém usando alguma fantasia? Descartei essa idéia também, não podia haver fantasias tão perfeitas. E assim eu passei minha tarde, trancado no quarto enquanto buscava desvendar aquele mistério grotesco.

Mais um dia e mais um bicho, um urso branco desta vez. Eu não sabia mais se ria ou se chorava. Fiquei preso o dia todo no escritório resolvendo alguns assuntos pendentes. Meu sócio piadista perguntou-me: "E aí, resolveu o problema com os bichos?". Respondi que sim sem prestar muita atenção. À noite, em casa, assistia televisão sem pensar em nada. Fixava meus olhos nas imagens em movimento, apático enquanto meu cérebro já estava exausto por tentar resolver o problema insolúvel. De repente ouvi algo, uma voz - talvez a minha, talvez não: "tente adivinhar o bicho de amanhã". Minha hipnose pela imagem do casal transando na TV foi instantaneamente quebrada. "Por que tentar adivinhar o bicho de amanhã?". Não obtive resposta, mas resolvi tentar mesmo assim. Não dormi direito aquela noite. Na manhã seguinte acordei segurando em uma das mãos um papel com vários nomes de animais rabiscados em meus devaneios mentais, como uma psicografia, e um deles claramente circulado com caneta hidrocor vermelha: "zebra". Não sabia como havia chegado àquela conclusão, sabia apenas que seria uma zebra. A zebra não saiu da minha cabeça. Escovei os dentes, tomei o café, peguei minhas coisas, fui ao ponto de ônibus e a maldita zebra não me saía da cabeça.

No ônibus a impaciência me roía a alma, olhava freneticamente pela janela, o maldito motorista parecia não querer acelerar, sentia que tudo se arrastava. E aquela calçada foi chegando, não a calçada da fama, mas a calçada dos "bichos". E de longe eu pude vê-la, aquela zebra sorrindo marota para mim. Olhei-a fixamente, ela dirigiu-me uma piscadela e saiu galopando pela avenida afora. Esse foi o último animal que assombrou minhas viagens de ônibus para o serviço. Nunca descobri que fórmula usei para chegar à zebra ou se existiu alguma fórmula e também nunca entendi porque, ao adivinhar, pus fim ao meu "Simba Safári" forçado.

Hoje minha ex-mulher me ligou:

- Você parece meio tenso, Carlos, o que houve?

- Nada não, apenas a correria do dia-a-dia...

- É, sei como é, mas não guarde toda essa energia negativa dentro de você. Sabe o que você faz?

- O quê?

- Solte os bichos!

Desliguei na cara dela!