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Meu Catoblepas

A primeira vez que me mostraram a foto do lobisomem foi quando eu tinha seis anos. Eu estava em casa, sentado de ponta-cabeça no sofá da sala vendo desenho-animado na tevê, e a Tata, uma alemoa que cuidava de mim e do meu irmão menor, se meteu na minha frente e perguntou se eu queria ver a foto do lobisomem. Aceitei sem muito interesse. Ela não esperou nem um segundo para começar com as explicações.

— O meu pai encontrou ele no cemitério, lá em Não-me-toque. Vê como o bicho se assustou e se escondeu na hora que bateram a foto? Vê como ele se abaixou?

Me desvirei; me ajeitei no sofá; peguei a foto; tentei ver aquelas coisas mas não consegui. Ela continuou.

— Naquele tempo não tinha máquina fotográfica como as de hoje, colorida. Por isso que a foto tá assim como tá: meio esfumaçada, só em preto e branco...

Antes de eu dizer o que realmente vi na foto, quero corrigir as observações que ela fez. Máquina fotográfica não é como televisão: não existe essa diferença entre colorida e preto-e-branca. O que faz a diferença é o filme que se usa, se ele é colorido ou preto-e-branco.

A foto do lobisomem foi, então, feita com um filme preto-e-branco. Esses filmes, e também os papéis usados para a cópia, são feitos à base de haletos de prata, que durante a revelação são transformados em prata metálica, resultando na formação da imagem com meios-tons de coloração prateada característica das fotografias em preto-e-branco. Com seis anos eu não sabia dar esses nomes ao que via, mas sabia muito bem distinguir vários tons de cinza de uns brancos meio escurecidos, e também podia notar a ausência de pretos intensos e a deterioração do papel. Foram essas as coisas que vi. Supostamente eu deveria ter sido capaz de identificar um bicho magrelo, com quatro patas, mãos de gente, cabeça de lobo, chifres e com a cara enfiada no chão por causa do susto que levou na hora em que um alemão da colônia se meteu na frente dele e gritou “olha a passarrinha!”. Eu não podia senão fazer graça de tudo aquilo. Nada me faria ver outra coisa além de uns borrões. Imaginando o que poderia ter ocorrido no momento do “clic”, acabei dando uma risadinha. Essa foi minha única reação. Mas isso aconteçeu só na primeira vez que me mostraram a fotografia do lobisomem.

Eu estava na cozinha de casa, preparando uma mamadeira para o meu caçula, que na época tinha apenas alguns meses, quando a Tata chegou para me fazer uma visita. Ela trazia dois sobrinhos vindos de Não-me-toque que estavam em Porto Alegre a passeio. Cumprimentei as visitas. Coloquei um sorriso no rosto e fiz uma brincadeira, oferecendo-lhes uma mamadeira quentinha. Simpaticamente eles me imitaram o sorriso, e assim pude ir adiante oferecendo, então a sério, um café a todos. Eles recusaram. A visita tinha um propósito que não pedia cerimônias. Os sobrinhos haviam trazido para ela uma nova foto do lobisomem, e ela vinha para me reintroduzir àquela visão. A cópia original já estava muito velha para ser manuseada, por isso providenciaram uma cópia 'restaurada'. Era uma foto da foto que ela me mostrara quando criança. Baixei o fogo e pedi para ver, sem muitas expectativas. Peguei-a e imediatamente, no centro da foto, vi o lobisomem de cabeça abaixada.

Eu segurava o pedaço de plástico brilhante tentando ver os mesmos borrões que lembrava ter visto quando criança, mas simplesmente isso não acontecia. O lobisomem estava lá e eu não podia fazer nada a respeito. Porém, os traços esfumaçados da imagem faziam pensar que talvez se tratasse de um desenho a lápis, ou de uma pintura feita sobre a foto de algum touro magro ou de um cavalo velho. Talvez a nova foto tivesse sido mal feita... Perguntei pelo original. Achando graça, e ao mesmo tempo tirando proveito do meu interesse, me responderam, todos concordando, que o original estava no cemitério, em Não-me-toque. Disseram que eu poderia ir lá fazer uma visita quando quisesse — que já fazia muito tempo que eu não me distraía; que eu poderia levar as crianças junto; que o ar do interior me faria bem... Talvez eu fosse, para visitá-los. Mas talvez eu fosse para retribuir à fotografia a visita que ela me fez.

Naquele mesmo ano eu havia encomendado ao Miguel, um conhecido livreiro de Porto Alegre, especializado em publicações argentinas, uma edição mexicana, ilustrada, do “Manual de zoología fantástica”, de Borges. Uma edição de 1954, publicada treze anos antes da edição mais conhecida, que tem título diferente: “El libro de los seres imaginários”. Ele me ligou no dia seguinte à visita, para dizer que o livro havia chegado. Como de costume, larguei o que estava fazendo e saí correndo buscar o livro feito criança atrás de brinquedo novo. Livro em octavo, com lombada costurada e papel não embranquecido... uma beleza. Conferi os dados catalográficos, o índice, comecei a dar uma passadinha rápida de olhos no volume procurando as ilustrações e acabei travando embasbacado com os olhos grudados no desenho da página 49: o lobisomem de cabeça abaixada da foto. O desenho e a fotografia correspondiam em todos os elementos relevantes: postura do bicho; chifres; mãos; focinho; olhos; o porte esguio e até umas barbichas que nasciam pouco abaixo das orelhas pontudas. Segundo o “Manual”, a ilustração era a de um Catoblepas: ser fantástico cuja existência já fora relatada por Plínio e que na “Tentação”, de Flaubert, fora confrontado por Santo Antão. Não sei como tive cabeça para lembrar de pagar o Miguel pelo livro.

A ida à Não-me-toque tornou-se um dever de saúde intelectual. Eu não deixaria a idéia da existência de seres fantásticos, ao menos um, ficar dando pulinhos dentro de mim por tempo indeterminado. Sabe-se lá em quê ela acabaria se transformando. Por isso preparei minha sacola de viagem com umas poucas mudas de roupa, minha câmera digital, o “Manual”, de Borges, e desci do ônibus em Não-me-toque na noite daquele mesmo dia.

Para não perder tempo com explicações e com revides de acusações de irresponsabilidade (porque deixei o pequeninho em casa com os mais velhos de oito e doze), não procurei nem a Tata nem os sobrinhos, e decidi que perguntaria onde me instalar e onde ficava o cemitério à primeira pessoa de aparência simpática que encontrasse. Foi bem fácil. Um senhor segurando uma cesta de balas me disse tudo o que eu precisava saber.

— Boa noite, senhor.

— Boa noite.

Mostrei o desenho do Catoblepas para ele.

— Estou procurando este bicho, acho que ele vive perto do cemitério. O senhor conhece? Já viu? Dizem que é um lobisomem.

Ele desceu o cesto, limpou as mãos na camisa e pegou o livro para ver mais de perto.

— O lobisomem... E não é que é ele, mesmo? Eu já vi o lobisomem, já. É ele, sim.

— E será que é ele de verdade?

— E não? E não é ele aqui? Pode ter certeza que é, porque eu já vi.

— Pois eu também quero ver. Será que eu consigo?

— Fala com aquele motorista que tá lá esperando no ponto. Ele leva as pessoas pra ver o lobisomem.

— Muito obrigado. O senhor foi muito gentil.

A cena do meu encontro com o Catoblepas não me saia da cabeça. O cemitério não devia estar muito diferente do que era quando a foto foi feita, eu pensava. Quem mudaria a posição das covas ou das lápides ou de outro elemento importante da paisagem? Eu já me via no mesmo local da foto, fazendo uma nova foto. Nada em que eu pensasse era capaz de estragar minha alegria.

Quando cheguei perto do motorista que o senhor baleiro me havia indicado, não precisei dizer muita coisa para ele saber o que eu queria. Acho que meus pensamentos eram tão claros e fortes que deviam estar brilhando na minha testa.

— Tu tá querendo ir pro cemitério, né? É pra ver uma coisa que tem lá?

Fiz força para esmaecer o olhar e relaxar o sorriso já ia se formando. Não queria que meu entusiasmo fosse confundido com infantilidade. Então mostrei o desenho ao motorista, explicando:

— Sei que esse bicho vive lá. Vim de Porto Alegre até aqui porque preciso vê-lo. É muito importante e muito sério. Não vou fazer mal nenhum a ele. Trouxe uma câmera para fazer uma foto e é só.

— Tá tudo bem. Pode deixar. Já vi de longe que tu tava querendo coisa séria. Pode deixar.

Mas nem por um segundo dessa conversa minha cabeça deixou de fervilhar com a idéia de eu estar próximo da comprovação da existência de um Catoplebas! e, principalmente, com a de estar próximo o fim de muitas das minhas antigas crenças.

O motorista foi tão atencioso comigo quanto o amigo baleiro. Ele quis me preparar para o que eu enfrentaria em seguida, me contando o que já havia acontecido a outras pessoas, inclusive a ele, quando tentaram ver o lobisomem. Para ele continuava sendo um lobisomem, apesar de eu ter tentado explicar que na verdade trava-se de um Catoblepas. Tudo o que ele me contava coincidia com as informações do Manual. O animal anda sempre com a cabeça apontada para baixo porque ela pesa demais. O nome que lhe deram, Catoblepas, é de origem grega, e quer dizer exatamente isso: o que olha para baixo. Ele me recomendou não tentar fazê-lo levantar a cabeça para a foto, porque eu correria o risco de olhar em seus olhos, e, também como conta Borges, quem olha nos olhos de um Catoblepas cai morto no mesmo instante.

Paramos no cemitério. O motorista me disse que o Catoblebas vivia numa caverna, e me indicou o local. Eu deveria ir sozinho, ele disse, pois o lobisomem já conhecia o cheiro dele, por causa de uma outra vez em que ele cedeu aos apelos de um passageiro e acabaram entrando juntos no cemitério. O tal passageiro assustou o monstro com o flash da câmera e o monstro ficou furioso com eles, e desde então ele não entrou com ninguém mais, para não provocar o monstro. Não sei por que ele usou tanto a palavra “monstro”, já que sempre o chamava de “o lobisomem”. Ouvi-lo falar em monstro me fez sentir, pela primeira vez, medo de ver o Catoblepas.

Entre as sepulturas, passando por caminhos de pedras soltas e de mato cada vez mais alto, fui avançando até a caverna, com mais convicção e coragem do que esperava ter depois de ter ouvido o que motorista contou. Por sorte a iluminação no local era boa, por causa da luz que vinha de uns condomínios que cercavam o cemitério. Reparei que a lua não estava cheia. Como o motorista poderia continuar achando que meu Catoblepas fosse um lobisomem se ele apareceria para mim mesmo sem a lua estar cheia? Ele esqueceria essa coisa de lobisomem quando eu voltasse com a mais nítida foto da fera.

Já na entrada da caverna abri meus olhos o mais que pude, para não perder um movimento sequer. Vi algo se mexendo perto de uma das paredes. Foi ele quem se mexeu! Saquei a câmera, liguei-a e dei mais três passos buraco adentro. Sem que eu pudesse fazer nada a respeito, das sombras da caverna vi sair o Catoblebas, e a primeira coisa que fiz foi olhar em seus olhos.

Imediatamente ele se recolheu. Eu me recolhi, saindo do cemitério com os olhos maravilhados. Do lado de fora, o motorista me aguardava sorrindo, acho que de satisfação por eu estar vivo.

Voltei para casa. Assim que cheguei escrevi para todas as editoras do “Manual” solicitando que fizessem a correção na página 49: quem olha nos olhos de um Catoblepas não morre, como contou Borges; quem olha nos olhos de um Catoblepas vira crente, e crê em tudo, e crê ter visto um Catoblepas.