Tive um incrível acesso convulsivo de tosse durante o banho, provavelmente por influência dos vapores quentes e da precariedade dos meus pulmões. Muito tempo sob a água, toda aquela umidade opressora, o banheiro vedado, sem renovação do ar. Mal pude encontrar a toalha na névoa. Tudo escorregadio e opaco, as paredes derretendo como lesmas, o chão frio e gosmento. Minha luta contra o espasmo da coqueluche foi de um infeliz agonizante, tentando secar o corpo que se repuxava e encolhia. Sustentar esse monte de carne violenta, uma tarefa para dois Hercules. A bile me subia no esôfago e no peito uma criatura se debatia como um gato ensacado, arranhando por dentro e querendo fugir. Agarrado na pia para fazer força e ficar em pé, explodia em miados e cusparadas, vazando pelos olhos e nariz e por todos os poros da cabeça. Cada vez que conseguia endireitar o corpo, via no espelho embaçado os contornos da minha máscara, e eu sabia que seria coisa feia de se olhar, a cara retorcida espumando babugem, o branco esbugalhado dos globos oculares e os vasos dilatados a ponto de sangrar, aquela minha testa franzida de quem não entende porque está nesta abjeta situação. Por causa das contrações violentas e repetidas, começaram a me doer o ventre e as costas, a garganta se rasgava para deixar passarem os rugidos todos que subiam loucos como homens correndo de touros e depois os touros mesmos, arrancados pelos cabelos das profundezas das subdivisões mais finas da ramificação da árvore brônquica. Os dedos trêmulos escorregavam na louça, mas eu ordenava que ficassem firmes, os coitados. Mais um pouco e me dariam cãibras. A cada tossida a bile subia um pouco mais, já chegava na garganta, e queria sair pela boca trazendo as tripas e tudo mais de arrasto. E continuei cuspindo minhas babas e latidos para dentro das tubulações do esgoto na cadência indomável da coqueluche, até que uma contração bizarra me fez vomitar uma lâmina de gosma ácida com restos de digestão. O jato de nojo se espalhou na pia e respingou também na parede, na minha barriga, no chão, entre os dedos do meu pé. Depois de ver passar a alma entre os dentes ainda sofri um pouco com uma seqüência de soluços, mas depois a natureza, não tendo razões para continuar me castigando, deixou-me descansar sobre as pedras, como os restos de um barco arrebentado pela tempestade. Curvado e ainda um pouco ofegante, analisei o que escorria pelo ralo e apaguei os vestígios da minha má sorte.
Torci a torneira até conseguir que parasse de pingar. Num estalo, me vejo mergulhado num silêncio abafado, como se caído no vácuo. Sinto meus pensamentos como se alguém os sussurrasse dentro de um cano, um zumbido longínquo e contínuo. Faço um movimento repetido da mandíbula, projetando-a, a fim de destapar os ouvidos e dar fim ao incômodo. O ruído da fricção dos ossos bem o percebo, como os de um gonzo enferrujado, mas depois volto à surdez, como se num mergulho. Olho no espelho e me mostro os dentes. Bons exemplares, sobretudo os caninos. Penso como se falasse, foda-se. Enrolo-me na toalha, apanho a tesoura com a mão direita e com o braço totalmente estendido a mantenho apoiada na perna, dissimulando-a para uma eventual necessidade de ataque, preparado para um duelo. Destravo a fechadura com a mão livre e giro a maçaneta sem que estale. Passo pela abertura da porta só depois que a nebulosa do banheiro se dissipa. O lado de fora está escuro. Teria trancado bem as portas e janelas? Cheio de cogitações e precauções, avanço em passos curtos pelo corredor que leva até a cozinha. Tateio a parede até encontrar o interruptor. Depois desta, ainda acenderei todas as luzes da casa. Com mais confiança, venço o caminho até o quarto, vistorio o escritório, olho dentro do roupeiro e sob a cama, checo as trancas das janelas, e por fim largo a tesoura na mesa da sala, como quem abandona uma flor no túmulo de um estranho.
Controlado, sento num canto da sala, bem perto do chão, à maneira dos orientais, para ver as coisas pela perspectiva correta, assentar os pensamentos como a poeira. Me faço acreditar que é assim que se conquista sabedoria para agir. Enrolo um cigarro, para relaxar, e fumo com tranqüilidade ordenando as idéias e o mundo ao meu redor. Temos que nos acostumar com a necessidade de tomar decisões diante do universo revelado aos sentidos, classificar, dar nome aos objetos inanimados, tomar providências. Há uma porção de coisas a fazer: regar as plantas, recolher o lixo, lavar os pincéis que ainda tiverem condições de uso, tirar os restos do almoço e pratos que ainda estão sobre a mesa e deixar tudo no balcão da pia com a louça do café da manhã, resgatar as peças de roupa que se espalham pelas diversas dependências, separar os jornais lidos, organizar a escrivaninha e a prateleira de ferramentas, et caetera, et caetera. Mudar tudo de lugar, transladar todas as coisas que repousam impassíveis, indiferentes à dor, às alegrias ou aos desgostos. Ou bem deixar tudo como está. Dou ainda uma tragada antes de esmagar a ponta do cigarro e decido: vamos deixar tudo como está. Ausente de mantras tentei entoar salmos, mas acabo recitando um poema de Li Po.
you ask how i spend my time –
i nestle against a treetrunk
and listen to autumn winds
in the pines all night and day.
shantung wine can’t get me drunk.
the local poets bore me.
my thoughts remain with you,
like the wen river, endlessly flowing.
Levei o bule ao fogo e limpei a peneira, que ainda estava cheia do chá velho da noite anterior, melissa e capim-limão. Ainda tomando decisões: parar de fumar, pelo menos por uns dias, pra ver se essa tosse me abandona. Talvez procurar um médico. Lembrei que no banheiro, durante os espasmos tinha falado em inglês para mim mesmo, como se fosse para outro, que aquilo poderia ser apenas a necessidade de pôr algo pra fora. Que fosse apenas isso, então. Pendurei no banheiro a toalha com que andava enrolado e vesti uma camiseta branca. Andei leve pela cozinha, seminu e descalço.
Abrindo a lata de thè au jasmin, lembrei de Virgínia. Eu a via estendida no sofá, as pernas dobradas de lado, apoiando em seus joelhos um romance qualquer de Sartre, e estou em pé em frente dela. Suas mãos brancas seguram o livro aberto bem no meio para me fazer ver algo. Ela queria me mostrar as portas que podia e as que não podia abrir para mim. Ela lê baixinho, como se estivéssemos na cama.
Mathieu shook his head sadly. He liked Gomez’s pictures. “You used to paint good pictures,” he said.
“I shall never paint again.”
“Why?”
“I don’t know. It’s physical. I’ve lost my patience; I should find it boring.”
Eu digo que sim, concedo um sorriso melancólico, como se entendesse. E agora, olhando para meu sofá vazio e frio, sem qualquer conforto, penso que devo estar entediado. Um certo tédio cético, falo para ela. E vejo um grande aborrecimento nos olhos frouxos de Virgínia, inclinados sobre um romance velho e distante.
Acendo um incenso e preparo chá para dois. Então me encolho sentado no chão encostado no sofá. E ela me acaricia as costelas com o pé, num movimento firme e leve de seus músculos longos de balé, como se eu fosse apenas um gato velho e gordo, ronronando bem baixinho e querendo me esconder.