Andou sem destino pelo quarto. Foi ao banheiro e masturbou-se na pia. No espelho escuro, olhou para sua barba por fazer. Acendeu a luz para lavar as mãos e limpar a pia. Saiu em direção à cozinha massageando a cabeça molhada do pênis dentro da cueca. Abriu a porta da geladeira e começou a examiná-la por dentro. Pegou meia garrafa de vinho sem rótulo, sentou na cadeira de palha e encheu a taça. Coçava a barba enquanto esfregava os dedos dos pés um contra o outro. Tinha muita coisa para fazer mas não queria pensar nem fazer nada. Queria parar o tempo e ficar ali sem pensar para sempre. A noite poderia nunca acabar. Olhou para o relógio no microondas: 2 da manhã. Levantou-se e pegou o resto do vinho e a taça. Passou novamente pelo banheiro e mijou. Foi para o quarto e ligou a tv. Dançou entre os canais à procura de algo mas não achou nada. Pensava em bucetas, em morte, em coisas coloridas... Desligou a tv e sentou-se na cama. Pegou o maço de cigarros e o isqueiro na mesinha ao lado. Acendeu e começou a tragar enquanto imaginava seus pulmões sendo comidos pelo câncer. Apesar de saber que seus pensamentos não eram novidade alguma, falava enquanto olhava para o radio relógio: “a única certeza é a morte”. Poderia “adiantar o processo”. Sorriu apenas com um lado da boca, descaradamente. Tinha o poder para desligar-se. E qual seria a diferença do seu corpo vivo para seu corpo morto? Começaria a apodrecer logo que o coração parasse de bater? O sangue começaria a coagular e o centro do seu conhecimento, o seu “eu”, seria a primeira coisa a sumir. Seu cérebro se liquefaria e talvez escorresse pelas orelhas. Riu gostando da imagem. Começou a examinar a barriga nua, tateando a procura dos órgãos que nunca havia visto. Tudo o que estava do lado de dentro de sua pele era ele. O que estava fora era “os outros”. E isso era intrigante pois ele não tinha prolongações além do seu interior. Se seus globos oculares, seu nariz, suas orelhas e sua boca fossem virados para dentro ele se alimentaria dele mesmo e desapareceria aos poucos. Odiava esses pensamentos bestas. Não era nenhum intelectual e mandava à merda. Já pensara em suicídio algumas vezes, em cortar os pulsos e em veneno. não o atraía o enforcamento nem o tiro na cabeça, pois não tinha revolver e não gostava de armas. Mas ainda tinha uma porra de um sentimento cristão resultante da educação forçada que recebera dos pais. E no fundo acreditava que sua alma poderia sofrer no inferno para sempre caso se matasse. No entanto dizia que era ateu e não acreditava na vida após a morte. Que raios: tem ateu que acredita na vida após a morte? Tragou o cigarro e ficou ouvindo o silêncio da noite. Sempre tem cachorro latindo. Lembrou do vinho, havia deixado no banheiro. Poderia tropeçar quando fosse pegá-lo e cairia no chão com a cabeça de uma maneira tão correta que morreria em seguida. Voltou para o quarto com a garrafa e sentou-se na cama. Serviu-se direto no gargalo enquanto pensava no que poderia fazer. Olhou para o relógio na mesinha e viu que já era 2h30. Se não fosse morrer essa noite precisaria dormir para trabalhar no outro dia, mas se deitasse sua cabeça não pararia de pensar e ficaria incomodado. Apenas um animal confuso. Não tinha vontade de ouvir música, nem de ver tv, nem de falar com ninguém, nem de dormir ou ler ou comer. Pelo menos tinha vontade de continuar bebendo e isso já era algo. Se fosse fácil se matar, tal qual apertar um botão, ele o faria. Ficaria ali olhando o botão, a mão coçando e tremendo, então, num gesto bem rápido apertaria o botão. Começou a lembrar das mulheres de sua vida e sorriu, isso era o suficiente para esquecer a idéia da inexistência. Como era fraco e covarde. Deitou na cama e adormeceu.